terça-feira, 19 de junho de 2012

As longas pernas de Acrocinus longimanus


As pernas longas dos machos de Acrocinus longimanus (Linnaeus, 1758)

Marcelo Araújo Campos
-Médico, sanitarista, especialista em doenças infecciosas e parasitárias e em saúde do trabalhador.
-Entomologista amador
Palavras chave: Acrocinus, dimorfismo sexual, seleção natural, sintelia.

Resumo: A partir de observações de um surto de Acrocinus longimanus, foram percebidas novas possíveis explicações para o comprimento do primeiro par de pernas dos imagos machos. Além da vantagem na seleção sexual, já descrita na literatura, que favorece os machos com pernas e corpos maiores na competição por fêmeas e locais de desova, foram encontrados indícios sugerindo que eles usam as pernas para “medir” o diâmetro dos troncos onde são depositados os ovos, e assim assegurar disponibilidade de alimento e maior segurança para o desenvolvimento das larvas, já que árvores e galhos mais grossos seriam mais resistentes às intempéries (a queda da árvore infestada pode expor larvas à predação). Caso esse achado se confirme, seria exemplo de como uma característica confere vantagens evolutivas diferentes (seleção sexual e seleção natural), levando à sugestão do termo “sintelia” para esse fenômeno.

Abstract: Regarding Acrocinus longimanus first leg pair’s length, a new explanations emerged due to observations during an outbreak of that beetle imagos. Not only, as beforehand cited in the literature, the length will be one advantage in their sexual selection, once as bigger legs and body will favour the males during a sexual competition for females and spawning spots as better fitted they are, but also, observation has shown that the length of the legs can be used to get tree trunks diameter measurement, where the eggs are putted, with the purpose to assure larger safety and food availability for the larvae development; trees with ticker branches would be also better resistant against weather influences (an unexpected tree or branches fall would submit those larvae to predation). For the case when one feature can provide different evolutionary advantages (i.e., natural and sexual selection) at the same time, the term “syntelly” is suggested.

 Foto: casal montado, tentando reproduzir a posição em que se encontravam. As antenas do macho estavam voltadas para a frente, e o primeiro par de pernas (as mais longas) mais abertas, envolvendo o tronco.

O objetivo deste artigo é descrever os achados decorrentes da observação de “surto” de Acrocinus longimanus (Linnaeus, 1758) ocorrido em outubro de 2007, em região do cerrado de Abaeté (MG), Brasil, aproveitando-se para, a partir dos achados de campo, apresentar algumas conclusões e considerações sobre dimorfismo sexual, etologia e ecologia desses cerambicídeos, para os quais o site ZipcodeZoo.com, da BayScience Foundation Inc. (a que foi acrescentada a sub-família, não citada naquele site), fornece a seguinte classificação:
                        Reino: Animalia Linnaeus, 1758
                        Sub-reino: Bilateria (Hatschek, 1888) Cavalier-Smith, 1983
                        Ramo: Protostomia Grobben, 1908
                        Infra-reino: Ecdysozoa Aguinaldo et al., 1997 ex Cavalier-Smith, 1998
                        Superfilo: Panarthropoda
                        Filo: Arthropoda Latreille, 1829
                        Subfilo: Hexapoda
                        Classe: Insecta Linnaeus, 1758
                        Subclasse: Dicondylia
                        Infraclasse: Pterygota
                        Ordem: Coleoptera Linnaeus, 1758
                        Sub-ordem: Polyphaga Emery, 1886
                        Infraordem: Cucujiformia
                        Superfamília: Chrysomeloidea
                        Família: Cerambycidae
                        Subfamília: Lamineae
                        Gênero: Acrocinus
                        Espécie: longimanus (ILLIGER Johann Carl Wilhelm,1806)
                        Nome científico: Acrocinus longimanus (Linnaeus, 1758)

A característica desses insetos mais citada na bibliografia científica (e leiga também) é o comprimento excepcional do primeiro par de pernas dos machos (até cerca de 20 cm). Essa característica, associada às manchas coloridas dos élitros e pernas, a que se juntam as longas antenas típicas dos cerambicídeos, despertam atenção geral, sendo eles tidos como um dos ícones das florestas tropicais das Américas, cobiçados por colecionadores de “exotismos”.
Fotos e desenhos desses besouros ilustram selos, cartazes e livros temáticos de diversos países (inclusive daqueles onde não são encontrados) e exemplares secos são fartamente oferecidos como peças para colecionadores e curiosos no mercado eletrônico da “web” nas mais diversas línguas.
            Além desse interesse algo fetichista, a espécie tem sido citada em estudos antropológicos, farmacológicos e por biólogos focados em teoria da evolução e em ecologia.
            Assim, conforme estudado detalhadamente por Dufour (1987) e De Foliart (2002), suas larvas são consideradas alimento por povos que vivem nas florestas da região amazônica, da América Central e até do México.
            Esse uso como alimento foi também descrito por Rudlle em 1973, e é razoável supor que a larva “não identificada”, citada por Wilbert em 1960 como tendo sido retirada (e comida) pelos Pariris de uma “árvore do gênero Ficus”, possa ser de Acrocinus longimanus.
Bulet e Stöcklin (2005), dos Laboratórios Atheris, em Genebra (Suíça) mencionam Acrocinus longimanus entre os insetos cujas “defensinas” (polipetídeos com ação antimicrobiana), constituinte de suas defesas inatas contra infecções fúngicas, vem sendo estudadas, inclusive com vistas ao desenvolvimento de novas drogas antimicrobianas.
Mais próximos do escopo deste artigo, estudos sobre processos evolucionários (com ênfase em evolução sexual) e ecologia também se valem do dimorfismo exuberante da espécie. Esse dimorfismo tem sido apontado como sendo resultado de seleção sexual dirigida pela intensa competição entre os machos pelo monopólio de fêmeas e locais adequados para oviposição (ZEH e ZEH, 1992; DURÁN, s/d.).
            Dentre as espécies de árvores preferidas, incluem-se as do gênero Ficus “gameleiras” – moráceas. Dentre elas, Fícus pertusa Linnaeus Filius 1781 são comuns no cerrado mineiro e, segundo Carauta e Diaz (2002, p. 98), a espécie tipo foi descrita a partir de exemplar coletado no Suriname por Dahlberg, o que evidencia sua larga distribuição no continente.
            O mesmo acontece com os besouros: os artigos reunidos na bibliografia deste texto referem serem de extensa distribuição nas Américas Central – incluindo Caribe - e do Sul, com ocorrência na Argentina; Barbados; Belize; Bolívia; Brasil; Costa Rica; El Salvador; Equador; Guatemala; Guiana Francesa; Guiana Holandesa; Honduras; México; Nicarágua; Panamá; Paraguai; Peru; Suriname; Trinidad e Tobago e Venezuela. Autores brasileiros referem ocorrência em todo o Brasil.
       São comuns na Amazônia, onde são tidos como pragas das jaqueiras (Artocarpus, também morácea, mas exótica, procedente da Ásia tropical), conforme observado em Presidente Figueiredo (AM) em 1997.
        Este artigo registra notas de campo feitas quando da observação de um “surto” desses insetos em fazenda no município de Abaeté, região centro-oeste de Minas Gerais.
      A região é pólo de silvicultura há décadas, que vem substituindo tanto o cerrado nativo como pastagens formadas para bovinocultura extensiva, com evidentes mudanças ambientais. À medida que a pressão ambiental aumenta, é de se esperar que cerambicídeos nativos, assim como outros insetos fitófagos, sejam forçados a buscar novas opções de plantas hospedeiras. Na região, opção evidente seriam as vastas plantações de Eucalyptus, (myrtáceas oriundas da Oceania e Ásia), presentes inclusive nos arredores (menos de um kilômetro) do grupo de gameleiras que foram objeto da observação aqui descrita.
        Tal interação entre cerambicídeos brasileiros e árvores exóticas já foi demonstrada. Assim, BERTI FILHO (1997) refere episódio quando coleobroca - Neoclytus pusillus, também cerambicídeo - causou danos a plantação de Eucalyptus pellita em Minas Gerais, em 1989, e resgata o registro de 28 espécies de cerambicídeos atacando pelo menos 11 espécies diferentes de Eucalyptus no Brasil. Acrocinus longimanus aparece na lista como responsável pelo ataque a troncos de Eucalyptus tereticornis.
A despeito de todas essas considerações, ao conversar com donos de fazendas e trabalhadores (incluindo técnicos agrícolas e agrônomos) envolvidos com a silvicultura de Eucalytus na região do Alto-São Francisco, contemplando experiência ampla em área e tempo - milhares de hectares de florestas da árvore australiana, formados e em expansão há mais de quarenta anos – ficou evidente a ausência de queixas relativas a danos pelo Acrocinus (note-se a surpresa manifestada por essas pessoas ao serem informadas da existência na literatura científica citando danos causados por eles), sugerindo que o potencial de dano econômico a essas monoculturas, pelo menos pelos arlequins, é restrito.
Apenas um dos cinco moradores da região (com 65 anos de idade) se recordava de já tê-los visto (“eu era menino, achei um no mato”). Não há nomes populares para eles na região. No máximo comparação: “parece um serra-pau” (sic morador local).
Na fazenda onde foram feitas estas observações, a única vez que os havia visto foi numa tarde do verão de 1975, quando tempestade derrubou outro Ficus, próximo aos atualmente infestados (adiante comentado). Á época eu estava com dez anos, e muito me marcou o espetáculo dos besouros espalhados pelo chão. Não sei se estavam se reunindo para aproveitar a árvore caída ou se estavam alojados nela e foram expostos. Refletindo sobre esse evento ocorrido há mais de trinta anos, me ocorre que a rapidez com que apareceram (menos de uma hora após a árvore ter caído) e a existência de galerias expostas no tronco quebrado sugerem que tanto causaram a queda da árvore como se aproveitaram dela para novo ciclo.

As observações em campo: descrição e achados
            Após ter sido encontrado um exemplar próximo à sede de fazenda no município de Abaeté (MG), foram examinadas quinze árvores “gameleiras” com busca ativa, nos dias 27 e 28 de outubro de 2007, com duas visitas a todas as árvores nos arredores (raio de 200 metros), em cada dia, entre 7 e 9 horas da manhã e entre 16 e 17 da tarde.
            Aplicando critérios de morfologia dos frutos descritos por Carauta e Diaz (2002), as árvores foram identificadas como Ficus pertusa Linnaeus Filius, 1781. No local, as gameleiras estão reunidas em bosque de árvores jovens – cerca de dez anos – associadas a exemplares antigos – mais de 50 anos – situado junto ao curral da fazenda, em área desmatada e isolado da vegetação nativa.
Nos galhos horizontais a face mais atacada é a “de baixo” (não exposta diretamente ao sol nem à chuva). O chão adjacente ou debaixo de galhos atacados mostra serragem grosseira e pouco abundante, que servia de indicio para localizá-los. Contudo, no caso da árvore mais antiga do grupo, o depósito de serragem junto ao tronco chegava a vários centímetros de espessura, dando mostras do poder de destruição das larvas.
Esta árvore estava intensamente esburacada, a madeira exposta atacada também por fungos e cupins, além de outros insetos xilófagos. As cavidades, visíveis em partes quebradas do tronco e de galhos que haviam sido podados com moto-serra, para evitar quedas e acidentes, mostravam galerias intercomunicantes, com secção elíptica com 4 a 15 cm de largura e 2 a 3 cm de altura, atingindo toda a espessura dos troncos e galhos mais grossos, e não respeitavam níveis (distribuição tridimensional nos tecidos profundos). Pareciam estar se dispersando a partir dessa árvore mais atacada e antiga, cuja madeira já estava macia e apodrecida.

Acima: foto 4 anos após o ataque, mostrando extensa destruição da árvore, que contudo não morreu.

Acima: secção do tronco mostra como as galerias não respeitam profundidade. Este corte foi feito logo após  a árvore ter dado mostras de estar definhando e alguns galhos terem caído. O tronco foi serrado por temor de que pudesse vir a cair, como já havia acontecido antes com outra árvore, durante ventania.


Acima: outra foto mostra concentração dos buracos de saída dos imagos por dentro da curva do tronco.

Abaixo: os galhos que se quebraram com o vento são rapidamente decompostos por cupins, fungos e outros insetos xilófagos ou detritófagos.


Na maioria das vezes foram encontrados indivíduos solitários. Parecem preferir as árvores de copa mais fechada e sombreada, tendo sido encontrados dois casais em uma delas e um terceiro casal em outra árvore.


 Acima: Close da fêmea protegida entre as pernas.

Acima: close do macho.

Ao serem perturbados ou perceberem movimentação se deixam cair e usam a queda para iniciar o vôo. Quando derrubados têm dificuldade para voar durante a queda e para decolar do chão. As mandíbulas muito fortes são usadas para se defenderem quando apanhados e podem causar cortes profundos nas mãos: devem ser seguros pelos élitros, logo abaixo do tórax. Nessa posição, ainda podem usar as garras para pequenos arranhões nas mãos que os seguram.
Foram apanhados onze exemplares de Acrocinus de quatorze vistos (três escaparam voando). Vôo lento, mas eficiente, com o corpo em posição quase vertical, discretamente inclinado para frente, as antenas em arco acima da cabeça e dos élitros abertos. Um dos machos que escapara voando foi encontrado duas horas depois no mesmo local (seria o mesmo?).
Dos apanhados, sete são machos, identificados pela genitália e pelo formato curvo do terço final das tíbias anteriores, em formato de gancho voltado para dentro.
Os três machos encontrados acompanhados de fêmeas eram “típicos” quanto ao enorme primeiro par de pernas. Os machos acompanham o trabalho de roer a casca e a oviposição com as longas pernas ao redor das fêmeas, enquanto desovam, e repelem outros besouros que se aproximem. Esses três casais foram encontrados roendo a casca (indivíduos isolados também o faziam, mas não foi possível concluir sobre seu sexo – não foram capturados e estavam em posições/ângulos de vista desfavoráveis).
Abaixo: um macho "típico": enorme primeiro par de pernas, esporão tibial bem desenvolvido, tamanho do corpo maior que o das fêmeas.
As cavidades produzidas pela roedura, semi-retangulares, formando “escadas” (várias cavidades alinhadas) tinham até 3 cm de profundidade e 6 de comprimento e 3 de largura, ocorrendo em troncos e galhos primários com diâmetro mínimo de 25 cm e a até cerca de 3,0 metros do solo. Nenhuma das cinco árvores jovens (tronco com menos de 25 cm de diâmetro à altura do peito - DAP) apresentou sinais de roedura e apenas uma das seis com DAP > 50 cm não os tinha.
A grossura dos galhos e troncos atacados sugere possível uso das pernas dos machos para avaliar diâmetro dos troncos e selecionar aqueles com massa suficiente para receber os ovos e suportar ação das larvas (veja “discussão”, adiante).

Abaixo: detalhe do esporão na extremidade da perna D do macho. É uma das características que identifica o sexo. Esses esporões, além de servirem de "ganchos" para se agarrarem nos troncos, talvez tenham alguma função (ex.: sensores de pressão) que permitam avaliar a grossura dos troncos.

O tamanho do corpo e comprimento do primeiro par de pernas não foi critério confiável de dimorfismo sexual e não permite conclusões imediatas ou à distância (quando são observados pousados nos galhos mais altos, contra a luz), exceto quanto notadamente exagerado, típico dos machos (quatro dos sete machos apanhados o apresentaram). Duas fêmeas tinham comprimento total do corpo maior que 70 mm, dois machos com 65 mm.
Abaixo: duas fêmeas, uma pequena (coletada em 1995 por Mateus Campos, área urbana de Bom Despacho, MG), e uma "normal": o primeiro par de pernas de algumas fêmeas também é relativamente grande, o que confunde à distância.

Uma fêmea foi encontrada já morta no chão próximo às raízes, um macho pequeno com parte da tíbia anterior direita cortada e outro sem uma das antenas (resultado de brigas entre eles?). Outra fêmea encontrada faltando parte do segundo par de pernas (as longas patas dos machos poderiam ser também uma forma de manter as mandíbulas das fêmeas à distancia, enguanto as seguram? Elas brigam entre si?).
Os dois besouros encontrados mutilados eram machos e menores que os intactos, e não parecem ter sido atacados pelas aves do quintal: as galinhas domésticas (Gallus gallus), fasianídeo oriunda de Sumatra e trazida ao Brasil pela comitiva de Cabral (SICK, 1997, p.285), os evitaram, enquanto angolas (Numida meleagris) numídeas procedentes de Cabo Verde, aceitaram prontamente um exemplar, deixando os élitros e as asas, após matá-los com bicadas cheias de cautela.
      Não foram observados ácaros nem pseudo-escorpiões em forésia em nenhum dos exemplares. Essa ausência pode ser significativa em termos ecológicos e evolutivos para essa população e para a espécie, principalmente quando se considera a pressão a que o cerrado mineiro está sendo submetido na região.

Discussão
Conquanto a literatura mencione que as desovas ocorram em “madera muerta” (Durán, 2004, p. 52) ou em “árvores mortas ou recém-mortas” (ZEH e ZEH, 1992), os três casais encontrados juntos (em oviposição, o macho aparentemente protegendo a fêmea, ambos roendo a casca) estavam em árvore sem sinais de doença e com troncos intactos, exceto pelas roeduras recentes. A árvore mais intensamente esburacada, de onde pareciam estar saindo, não tinha sinais de roedura na casca, mas extensas áreas de madeira morta exposta, onde podem ter ocorrido novas oviposições.
            Link e Costa (1983) afirmam atacarem árvores vivas, principalmente quando em campo aberto, o que a empiria deste estudo corrobora. Acrescento a hipótese de árvores mortas ou doentes poderem ser focos de disseminação para árvores hígidas, como parece ter sido o caso no surto observado.
Os vendavais, ao quebrar e expor a madeira (inclusive já morta) podem ter papel importante em propiciar “pontos de encontro” para esses besouros se reunirem e reproduzirem, fato referido por DURÁN (s/d) que escreve: “Realmente es un espectáculo maravilloso encontrar un tronco naturalmente abatido por alguna tormenta o recientemente talado, literalmente recubierto de machos y hembras de Acrocinus longimanus en pleno frenesí reproductor.”.
Como dito antes, numa tarde do verão de 1975 os besouros foram vistos junto a árvore derrubada por tempestade, no mesmo local onde foram re-encontrados em 2007, tendo se passado 32 anos entre aquele primeiro avistamento e o surto objeto deste artigo.
Em função dessa associação com intempéries, e considerando que o hábitat desses besouros inclui a América Central e o Caribe, áreas com alta freqüência de vendavais e furacões, fica mais fácil compreender por que um dos seus nomes em inglês seria “hurricane beetle”, conforme citado num site japonês de filatelia temática [Anônimo, sem data. Encontrado no site http://www.asahi-net.or.jp/~ch2m-nitu/usurye.htm, visitado em 22 de novembro de 2007].
Invertendo a seqüência, galhos e troncos atacados e adoecidos ficam vulneráveis a serem quebrados por vendavais: as mesmas forças da natureza que propiciam a madeira de árvores caídas onde esses besouros se reúnem para desovar, também pode derrubar árvores onde as larvas estão se desenvolvendo, expondo-as à predação, conforme observado na mesma fazenda, naquela tarde de tempestade no verão de 1975, acima citada, quando um grande Ficus pertusa foi derrubado pelo vento, expondo larvas e adultos. Naquela ocasião, as poucas larvas expostas foram prontamente devoradas pelas galinhas do quintal, as quais evitavam os adultos espalhados pela grama.
Essa vulnerabilidade às intempéries dos troncos e galhos mais finos poderia reforçar a importância da seleção pelos machos de troncos e galhos mais grossos, usando as longas pernas. As pernas, corpos e antenas maiores, que possuem relação de alometria entre si (ZEH & ZEH, 1992), contribuem para atração de fêmeas e são fator de sobrepujação de outros machos competidores pelos mesmos locais e fêmeas.
O tamanho do corpo e, mais especificamente, do primeiro par de pernas dos machos é cacterística morfológica que contribui para conferir vantagem evolutiva de várias formas: seleção sexual (escolha pelas fêmeas e vencer outros machos na luta pelas fêmeas e pelos melhores locais para oviposição) e seleção natural (quando o cumprimento das pernas, ao eleger troncos mais grossos, assegura mais chances de pleno desenvolvimento das larvas, pelo maior acesso a grande reserva de alimentos – a massa dos troncos - e menor vulnerabilidade a intempéries, pela maior resistência dos troncos e galhos mais grossos às forças dos ventos).

Conclusão
            Embora não tenha sido feita nenhuma análise estatística, o conjunto de informações aqui apresentado leva à proposição da hipótese de que o comprimento das pernas dos machos de A. longimanus, além de ser característica relacionada à seleção sexual, também é usado para escolha de troncos e galhos mais grossos para receber oviposição, assim aumentando a chance das suas larvas se desenvolverem e completarem o ciclo de vida (chegando a depositar uma segunda geração na mesma árvore).
Caso essa hipótese resista ao tempo, ela poderia ser exemplo de como uma mesma característica comportamental e morfológica contribui para vantagens evolutivas por vias diferentes e, em última instância, favorecem os indivíduos que apresentam essa característica. Para esse fenômeno sugiro o nome de “sintelia” (syn – mesmo + télos – resultado, conclusão).
Para compor esse termo o radical télos está sendo usado, conforme discutido por Mayr (2004), com o sentido de “resultado de um processo”, lembrando que o processo em questão é o processo adaptativo mediado pela seleção natural. Isso deve ser esclarecido para evitar contaminação do termo por ideologia teleológica, onde o sentido de télos é “resultado de um plano”, não aplicável aos processos evolutivos dos seres vivos em condições naturais.

Referências bibliográficas
BERTI FILHO, E. 1997. Impacto de coleoptera cerambycidae em florestas de Eucalyptus no Brasil. Scientia Forestalis n. 52, p. 51-54.
BULET, P.; STÖCKLIN, R. 2005. Insect Antimicrobial Peptides: Structures, Properties and Gene Regulation. Protein and Peptide Letters 12, 3-11.
CARAUTA, J.P.P. e DIAZ, B.E. 2002. Figueiras no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. p 98.
De FOLIART, GENE R. 2002. The Human Use of Insects as a Food Resource: A Bibliographic Account in Progress. Encontrado em http://www.food-insects.com/book7_31/Chapter%2007%20Colombia.htm, em 22 de novembro de 2007.
DUFOUR, D.L.  1987.  Insects as food: a case study from the northwest Amazon. Am. Anthropologist 89(2): 383-397.
DURÁN, J.R.E. s/d. El Arlequín de Cayena. Terralia 48, acessada via web em 20 de novembro de 2007. http://www.terralia.com/articulo.php?recordID=4809
DURÁN, J.R.E. 2004. Cerambícidos exóticos del ámbito amazónico. Foresta 28, 48-55. Disponível na web no endereço http://www.forestales.net/archivos/forestal/pdfs%2028/cerambicidos_exoticos.html, acessada em 24/nov/2007.
LINK, D.; COSTA, E.C. 1983. Morfologia e Biologia do Arlequim da Mata, 'Acrocinus longimanus' (L.,1758). Revista do Centro de Ciências Rurais - CCR., v. 13, n. 2-3, p. 123-134.
MAYR, E. 2004. Teleologia. in Mayr, E. Biologia, ciência única: reflexões sobre a autonomia de uma disciplina científica. Tradução de Marcelo Leite. São Paulo: Cia das Letras. pp. 55-82.
RUDDLE, K.  1973.  The human use of insects: examples from the Yukpa. Biotropica 5(2): 94-101.
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WILBERT, J.  1960.  Zur Kenntnis der Parirí.  Archiv fur Volkerkunde 15:80-153.
ZEH, D., ZEH, J. & TAVAKILIAN, G., 1992. Sexual selection and sexual dimorphism in the harlequin beetle Acrocinus longimanus. Biotropica, 24(1), p.86-94. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/2388476.

7 comentários:

  1. Acabamos de encontrar um em nossa varanda em Abawte Munas Gersis. Um macho, enorme. Tenho uma foto.

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  2. Do que esse bicho se alimenta!! Encontrei uma fêmea no meu quintal!! Em Tupanciretã/RS!! Eles comem insetos ou as árvores!!

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  3. Encontrei um exemplar macho na minha Reserva: RPPN Morro Sapucaia em Sapucaia do Sul. há a significativa presença de Ficus no local.

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  4. Se por ventura um ser humano seja atacado por este inseto,quais seriam os sintomas?

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  5. Ele transmite doenças ele morde o que ele faz com o humano ao tocar

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  6. Achamos um casal no sítio da minha família

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  7. Achei um macho aqui quando fui colher uma jaca ,me deu muito asco moro em Ribeirão das Neves.

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