terça-feira, 3 de julho de 2012

Formigas no CTI

O trabalho que originou este artigo foi feito durante minha especialização como infectologista (residência médica na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, Hospital Eduardo de Menezes, estágio no CTI do Hospital João XXIII), em março de 1997, e tem história curiosa: assim que terminei e mostrei aos colegas, a então enfermeira chefe do CTI mostrou desagrado e o levou ao diretor clínico do hospital. O diretor me chamou para conversa, fui imaginando que seria elogiado, e recebi reprimenda e ordem para não publicar (!). Eu era médico-residente, obedeci. Alguns anos depois me lembrei, submeti a revista científica e recebi três pareceres: um por "publicar com correções" (nomes de bactérias incorretos, o que ainda continua); "publicar como está" e "não publicar". O editor me mandou resposta com os pareceres afirmando "recusado por unanimidade dos pareceristas" (ele próprio não leu os pareceres que me mandou). Enfim, 15 anos depois, eis o trabalho. Nunca mais falei com Anselmo, co-autor, que era meu preceptor no CTI e o apoiou totalmente (além de ter me ensinado muito no manejo dos pacientes no CTI). Anselmo, espero que não se importe de publicação tão tardia. Não fiz sequer releitura: corrigir agora me pareceu perda de autenticidade de como eu era à época. A responsabilidade por eventuais incorreções e limitações técnicas continua portanto integralmente minha.

 
 
FORMIGAS E INFECÇÕES BACTERIANAS EM UM CENTRO DE TERAPIA INTENSIVA
Unitermos: Infecções hospitalares, formigas, vetores, CTI.

ANTS AND BACTERIAL INFECTIONS IN AN INTENSIVE CARE UNIT
Key-words: cross infection, ants, mechanical vectors, ICU.

 Marcelo Araújo Campos[1] e Anselmo Dornas Moura[2]

                RESUMO: Infecções estão entre as principais causas de óbito nos Centros de Terapia Intensiva. No CTI de Hospital de Belo Horizonte foram vistas formigas nas paredes, equipamentos e, ocasionalmente, sobre pacientes, despertando preocupação. Três gêneros de formigas foram identificados: Paratrechina longicornes, Pheidole sp e Brachimirmex sp., as duas  primeiras sobre pacientes. Fontes de alimentos utilizadas pelas formigas e vias de acesso aos pacientes foram documentadas, no intuito de orientar medidas de controle e redução de potenciais danos causados por elas. Usando técnica asséptica, exemplares de P. longicornes apanhadas em pacientes e no ambiente foram semeadas em ágar-sangue, tendo sido isolados Staphilococcus epidermidis, Staphilococcus aureus, Staphilococcus saprophiticus, Acinetobacter, Enterobacter e bacilos gram-positivos. Staphilococcus aureus, Enterobacter e Acinetobacter sp, reconhecidas causas de infecções graves, foram isolados de formigas colhidas em pacientes, não das colhidas no ambiente. As culturas de formigas colhidas em pacientes apresentaram número significativamente maior de UFC quando comparadas às culturas de formigas do ambiente e controles (p=0,022773). O risco de se encontrar formigas em um paciente para cada dia de permanência neste CTI foi calculado em 3,1%. Esse risco parece maior para os leitos próximos às colônias. Considerando os hábitos das formigas, disseminação direta de bactérias paciente/paciente é improvável, mas a chance de formigas transportarem, num mesmo paciente, fômites para outros pontos do corpo ou contaminarem equipamentos é evidente. Ainda que elas sejam disseminadoras pouco eficientes de infecções, a alta vulnerabilidade dos pacientes e o grande pêso que infecções têm na sua mortalidade, além do desconforto causado por ela, torna imperativo o controle destes insetos. Aspersão periódica de inseticidas de ação residual teve bom efeito no seu controle, mas vigilância para sua detecção deve ser contínua.

                ABSTRACT: Infections are among the major causes of patient’s deaths on Intensive Care Units (ICU). We found ants on walls, devices and, some times, on patient of a Belo Horizonte city hospital ICU, what concerned us.Three ants species were identified: Paratrechina longicornis, Pheidole sp. and Brachimyrmex sp. Their food sources and ways to achieve the patients were assessed, in order to guide control measures and reduce potencial damages. P.longicornis were catched from patients with asseptic techinics and cultivated on blood-agar. Staphilococcus epidermidis, Staphilococcus aureus, Staphilococcus saprophiticus, Enterobacter, Acinetobacter and gram-positive baciles were isolated. Of these, Staphilococcus aureus , Enterobacter and Acinetobacter are commom cause of severe infections and were recovered from cultures of  patient’s ants only, not from cultures of ants captured on the enviromment. The risk to find ants on a patient, in at least one day during the permanence in these ICU for each patient, were calculated as 3,1%, but may be higher for beds close to the colonies. Considering  ants ethology, direct transmission of bacteria among patients seems to be improbable, but contamination of wounds with bacteria from the patient himself and contamination of devices is an obvious risk. Although their poor efficacy on infections dissemination, the high patients vulnerability to infections, the diconfort caused by them and the great impact of infections on such patients makes ants control an imperative. Periodical aspersion of residual insecticides was effective, but a surveillance to detect their presence must be continuous.


INTRODUÇÃO:

                Infecções hospitalares ocorrem 2 a 5 vezes mais frequentemente entre pacientes internados nos Centros de Terapia Intensiva (CTI) que entre outros pacientes, e são importante causa de aumento do tempo de permanência, da mortalidade e dos custos do tratamento[1] [2]. A fonte das infecções pode estar associada a fatores insuspeitados: em 1914, Wheller[3] mencionou o risco de veiculação mecânica de bactérias por formigas e baratas encontradas nos hospitais. Essa transmissão se dá basicamente por contaminação da superfície corporal, partes bucais e pernas/pés ao caminhar ou se alimentarem em materiais contaminados.

                Embora baratas também possam acumular patógenos (ex: Salmonella sp) no trato digestivo e os disseminarem nas fezes ou ao regurgitarem alimento, essa forma parece pouco importante para formigas, mesmo que possa ocorrrer disseminação formiga-formiga, quando operárias regurgitam alimento para outras operárias ou para larvas. Além de bactérias, baratas são implicadas na disseminação de lepra, tuberculose, helmintos, protozoários e vírus da hepatite[4], enquanto formigas do gênero Solenopsis foram apontadas como potenciais disseminadoras de disenterias[5]. Donisthorpe[6], em 1945, relatou transmissão de varíola por formigas no Egito; Ali e Bennet (1986) as acusam de transmitir infecções estreptocóccicas em berçários da Índia[7]. Monomorium pharaonis (Linnaeus), a “formiga faraó”, é reconhecida há décadas como problema nos hospitais alemães, onde contamina suprimentos e equipamento cirúrgico esterilizados[8], sendo considerada ameaça ainda hoje[9]. Chadee e Le Maitre (1990)  referem, além de Monomorium, outras 3 espécies de formigas - de larga distribuição nas américas - como problema de saúde pública em hospitais e fábricas de alimentos de Trinidad, onde contaminam produtos e equipamentos[10]. Formigas são também hospedeiras intermediárias de cestódeos de importância veterinária[11] [12].

                No ambiente hospitalar formigas operárias em expedições de forrageamento exploram praticamente qualquer tipo de líquido ou matéria orgânica. Uma vez localizadas fontes de alimento ou água, pouco se desviam das trilhas marcadas por ferormônios (o que tem importância por diminuir a probabilidade de disseminação de patógenos entre pacientes). Elas são atraídas por pacientes com lesões supurativas, sangue ou sudorese intensa. Os ninhos, com temperatura entre 27 e 38’C, humidade de 80% e alimentos estocados, uma vez contaminados podem se tornar reservatórios de Serratia marcescens (3 semanas); B. globigii (longos períodos); Pseudomonas sp.  por tempo ignorado. Desse modo podem disseminar infecções nos pacientes ou ao contaminar equipamentos estéreis, por invasão dos pacotes de material cirúrgico e de procedimentos, inclusive aqueles estocados após auto-clavagem, podendo passar desapercebidas[13].

                Este artigo descreve achados bacteriológicos resultantes da cultura de formigas colhidas ao serem encontradas em pacientes internados no Centro de Terapia Intensiva de um hospital de referência de Belo Horizonte, o que acreditamos seja fato inédito: a escassa literatura disponível descreve formigas de ambientes hospitalares, mas não diretamente colhidas de pacientes. Outros pontos importantes para a compreensão do seu papel na disseminação de infecções e que possam orientar para seu controle são discutidos.

METODOLOGIA:

                Tendo sido constatadas formigas em pacientes do CTI, foram feitas colheitas (abaixo descritas) e iniciada busca ativa diária no período de 15 a 31/março/1997 nos leitos de clínica de adultos. As buscas aconteceram pela manhã, entre 6:00 e 7:00h, sendo vistoriados o leito, o paciente (principalmente onde houvesse soluções de continuidade na pele ou presença de secreções), equipos de soro e demais equipamentos de suporte a ele conectados (ex: sondas, catéteres, eletrodos, tubos dos respiradores, traqueostomias). Ao mesmo tempo, as dependências do CTI foram vistoriadas em busca de formigas. Secreções e sangue dos pacientes onde se encontraram formigas foram também enviadas para cultura e os achados comparados aos das culturas semeadas com formigas.

Colheita de formigas das pacientes:
                Em duas pacientes (boxes 4 e 5) foram encontradas formigas (Paratrechina longicornes), sendo que no box 5 foram achadas por 3 dias consecutivos. Ao todo foram colhidas 7 formigas de pacientes.
                A paciente do box 4 (aqui designada como paciente 1) era uma mulher de 33 anos, admitida devido a trauma torácico por arma de fogo. Houve fratura e osteomielite esternal, em tratamento com a cavidade torácica aberta quando da colheita das formigas, que se aglomeravam junto ao curativo cirúrgico. Tinha também pneumonia com formação de pneumatoceles e derrame pleural, diagnosticada clínica e radiologicamente como estafilocócica. Três das formigas que caminhavam sobre equipo conectado à veia sub-clávia direita foram derrubadas com toque no equipo, diretamente sobre placas de cultura com ágar-sangue, sem contato da mão enluvada nem com as formigas nem com as placas. Para efeito de controle, outra placa foi posicionada sob o mesmo equipo e repetido o mesmo movimento (toque no equipo) sobre ela. As quatro placas (3 com formigas e 1 controle) foram imediatamente incubadas em estufa a 37’C e lidas após 24 e 48h, assim como todas as demais placas citadas a seguir. Uma quinta placa foi semeada com formiga colhida sobre a pele do tórax usando gaze estéril. Essa paciente foi tratada com vancomicina, ciprofloxacim e amicacina, com alta após 28 dias no CTI.

                No box 5 estava outra paciente (paciente 2), 47 anos, admitida para tratamento de pneumonia de aspiração após tentativa de auto-extermínio com ingestão de NaOH e ácido muriático. Apresentava esofagite e gastrite químicas graves. Estava com jejunostomia, sondas naso-gástrica e vesical, traqueostomia, catéter para medida de pressão venosa central na veia femural direita e sedada. Além da pneumonia, hemocultura evidenciou sepsis por Acinetobacter sp. Tratada com meropenem e amicacina, boa evolução, alta após 43 dias no CTI.

                Aí foram feitas três colheitas: a primeira de uma das formigas que caminhavam sobre o tórax da paciente e se aglomeravam junto à traqueostomia, onde havia secreção sanguinolenta: usando máscara cirúrgica e luvas, gaze estéril foi colocada sobre as formigas que nela subiram, uma delas derrubada sobre a placa de cultura. Como controle, outra gaze igualmente estéril foi aposta sobre o mesmo local da pele mas sem permitir que formigas subissem nela, e também agitada sobre outra placa. Formiga que caminhava sobre a cânula da traqueostomia também foi colhida: tubo de ensaio estéril foi aposto sobre a cânula, e quando a formiga passou para o tubo ele foi tampado. Em seguida foi acrescentado com seringa 1,0 mL de soro fisiológico estéril ao tubo, que foi agitado e semeado na placa. Placa controle foi semeada com soro proveniente de tubo que sofreu o mesmo processo de aposição à cânula, foi tampado, recebeu o soro, foi agitado e derramado sobre placa. A terceira formiga desta paciente foi colhida sobre equipo da bomba de infusão, com técnica já descrita (derrubada sobre a placa).

Colheita de formigas do ambiente:
                Feitas duas colheitas de formigas do ambiente, cada uma com sua placa controle: a)oito das formigas que caminhavam sobre as paredes da sala dos médicos e b)cinco das paredes dos boxes, longe dos pacientes e dos boxes foram derrubadas com movimento de varredura por gaze estéril sobre as placas. As placas controle foram expostas ao mesmo movimento de varredura sobre a parede.
                Análise estatística foi feita com EPI-INFO 6.0.

RESULTADOS E DISCUSSÃO:
                Durante o período do estudo, a média de ocupação dos leitos foi de 8 pacientes/dia, com total de 128 pacientes/dia, dos quais 4 pacientes/dia infestados por formigas: o risco de se encontrar formigas em um paciente a cada dia de permanência no CTI foi de 3,1%. Como foram encontradas em “apenas” 2 pacientes, não foi possível realizar análise comparativa de características eventualmente “atrativas” dos pacientes.

                Três gêneros de formigas foram encontradas: Paratrechina longicornes e Pheidole sp inclusive nos leitos e pacientes, Brachimyrmex sp. só no ambiente, próxima às áreas externas, sugerindo ser “visitante”. Apenas P. longicornes, encontrada em grande quantidade, foi colhida para as culturas porque quando foram encontradas Pheidole sp. (num terceiro paciente grande queimado) o estudo já estava em conclusão.

                Nos pacientes “infestados”, foram vistas invadindo tubos do respirador (inclusive cânula da traquestostomia), explorando cantos dos olhos, lábios e ângulo bucal, traqueostomias, escaras, ferimentos, secreções e sujidades orgânicas dos pacientes; sobre curativos de fratura exposta, bolsa de colostomia e de toracotomia (com o tórax ainda aberto) invadindo campo cirúrgico durante procedimento e sobre pontos de sutura e venóclise.
                No ambiente, foram encontradas na bancada de preparo das soluções medicamentosas, aglomeradas em torno de gotas de soro, nas paredes e bordas das pias, sobre as bombas de infusão contínua e bancadas dos monitores computadorizados. Raramente encontradas no chão, talvez pela constante presença de desinfetantes.

                Imediatamente após a colheita, o trajeto das formigas foi identificado e limpo com álcool, impedindo que continuassem a chegar às pacientes. Apesar disso, no box 5 ainda foram vistas nos dois dias seguintes, tendo a paciente sido removida e o box submetido a limpeza, após o que desapareceram. Na sala dos médicos e na bancada de preparo de soluções elas só foram controladas após aspersão de inseticida.

                Aparentemente duas colônias de P. longicornes incluem o CTI na área que exploram: uma frequenta os boxes do lado leste e a sala de preparo de soluções (onde está seu ninho), a outra explora os boxes dos lado oeste e norte, além da sala de prescrições, e tem o ninho localizado no exterior do prédio. Pheidole sp. tem colônias na parede dos boxes 13 e 15.

                Fontes de alimentos para P. longicornes identificadas no CTI foram a)restos dos alimentos consumidos pela equipe (na sala de prescrições e na copa), b)líquidos orgânicos dos pacientes (encontrados em gazes e/ou compressas sujas, gotejamentos no chão ou nos próprios pacientes, como secreções de ferimentos) e c)outros insetos, atraídos pela intensa iluminação ambiente (principalmente pequenos lepidópteros)  ou também habitantes do CTI (foi vista ninfa de Blatella germanica sendo arrastada por operárias).


Tabela 1: Análise estatística dos números de Unidades Formadoras de Colônias (UFC) conforme fonte da formiga.

Placas controle
n=6
Placas semeadas com formigas do ambiente
N=13
Placas semeadas com formigas dos pacientes
n=7
N° máximo de UFC
1
21
500*
N° médio de UFC
0,333
5,385
213,857
N° mínimo de UFC
0
0
0
Desvio padrão
0,516
7,89
209,449
N° de culturas negativas
4 (66,67%)
3 (23,08%)
2 (28,57%)
N° de culturas positivas
2 (33,33%)
10 (76,92%)
5 (71,43%)
*2 das placas tinham número incontável de UFC, sendo atribuído 500 como forma de tornar possível o cálculo estatístico. As outras 5 placas tinham os seguintes números: 0, 0, 142, 168 e 187.


                Comparação entre os números de UFC conforme a fonte da formiga usada para cultura (tabela 1) resultou em Kruskal-Wallis-H de 7,564, considerando 2 graus de liberdade, e p = 0,022773. Esse resultado, de valor muito limitado pelo tamanho da amostra, sugere que formigas colhidas diretamente nos pacientes portam maior número de bactérias que as colhidas no ambiente. Possível explicação para esse achado (além do acaso) é o hábito das formigas de se limparem a curtos períodos: as do ambiente podem ter tido tempo de removerem a maioria das bactérias, carreando mais esporos que formas vegetativas, enquanto as dos paciente poderiam ainda estar contaminadas com formas vegetativas em grande número. Também o número de espécies de bactérias isoladas das formigas colhidas em pacientes foi maior que nas colhidas no ambiente, mas sem significância estatística. Não houve diferenças entre culturas de formigas colhidas nas paredes dos boxes e da sala de prescrições, quanto a número de UFC ou espécies de bactérias encontradas.



Tabela 2 - Comparação dos achados às culturas de formigas e fluidos corpóreos em cada paciente.

Formigas
Flúidos corporais

Local de colheita
Resultado da cultura
Tipo de fluido
Resultado da cultura
Paciente 1
Equipo de catéter conectado
 à v. Sub-clávia

Staphilococcus epidermidis, BGP**
Secreção traqueal
Staphilococcus aureus (MARSA)
Pseudomonas aeruginosa

idem
Staphilococcus aureus*, Staphilococcus epidermidis
Sangue
negativa***

idem

Negativa
Urina
negativa***

Pele do tórax
Acinetobacter sp, Staphilococcus epidermidis, BGP


Paciente 2
Equipo do soro

Negativa
Sangue
Acinetobacter

Cânula da traqueostomia

Enterobacter cloacae
Secreção traqueal
Enterobacter cloacae

Bomba de infusão
Staphilococcus epidermidis
Urina
Enterobacter cloacae
Klebisiella pneumoniae
*A paciente 1 teve quadro de pneumonia com derrame pleural e pneumatoceles, diagnosticada radiológica e clinicamente como de etiologia estafilocócica. ** BGP = Bacilos Gram-positivos “difteróides”, considerados contaminantes. MARSA=“Methicillin-Ampicillin Resistant Staphilococcs Aureus” *** Culturas feitas em vigência de antibiótico-terapia com vancomicina, ciprofloxacim e amicacina.


                Conforme mostrado na tabela 2, embora na paciente 2 tenha havido coincidência entre o agente da infecção urinária, da secreção traqueal e uma das bactérias isoladas da formiga colhida na cânula de sua traqueostomia (Enterobacter cloacae) os perfis de sensibilidade aos antibióticos foram diferentes. Também houve coincidência entre a bactéria isolada da secreção traqueal e de formiga da paciente 1 (Staphilococcus aureus - MARSA), mas não foi feito antibiograma do Staphilococcus aureus isolado da formiga. Observe-se que a paciente 1 também apresentava pneumonia estafilocócica (diagnóstico clínico e radiológico).
O significado destes achados é difícil de ser estabelecido já que ambas as bactérias são comuns no CTI: é possível que as formigas tenham simplesmente se contaminado com a flora das pacientes. Desse modo, não há como estabelecer relação causal entre aquelas coincidências e os quadros clínicos, embora fique claro o risco de transporte das bactérias pelas formigas. A tabela 3 reúne achados bacteriológicos de quatro estudos, inclusive este. A bactéria mais frequentemente isolada das formigas foi o Staphilococcus epidermidis, o que reproduz achados de Beatson (1972)13.


Tabela 3 - Achados de 4 estudos sobre formigas como vetores mecânicos de bactérias em hospitais.
Autor e ano
Local
Fonte da formiga
Espécies de formigas
Bactérias encontradas**
Chadee e Le Maitre
1989
Trinidade
enfermarias pediátrica e neonatal
Monomorium pharaonis
Tapinoma sessile
Solenopsis sp
Solenopsis molestus

Klebsiella pneumoniae, Proteus mirabilis, Pseudomonas sp., Streptococcus (grupo enterococo) e 3 outras bactérias “não patogênicas”.
WHO
1988[14]
EUA
ambiente hospitalar

não informado
Salmonella sp, Pseudomonas sp
Staphilococcus sp, Streptococcus sp, Clostridium spp

Beatson
1972
EUA
CTIs, enfermarias, cozinhas e banheiros de 9 hospitais americanos

Monomorium pharaonis
Staphilococcus epidermidis, Staph. aureus, Pseudomonas aeruginosa, Ps. Fluorescens, Acinetobacter anitratus, Bacillus sp, Escherichia coli, Klebisiella spp, B cereus, B pumilis, Clostridium welchii, Cl. cochlearium, Providence spp, Sarcina lutea, Streptococcus pyogenes, St. faecalis, Proteus spp,  Neisseira sicca,
Campos e Moura, 1997
Brasil
CTI
Paratrechina longicornes***
Pheidole sp.
Brachimyrmex sp.

Staphilococcus epidermidis, Staph. saprophiticus,  BGP, BGNNI*



Pacientes do mesmo CTI
P. longicornes***
Pheidole sp.
Staphilococcus aureus, Staph. epidermidis, Acinetobater, Enterobacter cloacae, BGP
Obs: *BGP=Bacilos gram-positivos “difteróides”. BGNNI=Bacilos gram-negativos não identificados. **Meios de cultura diferentes.
 ***Apenas P. longicornes semeada em cultura.


CONCLUSÕES:

                Formigas, como outros insetos, têm hábitos de higiene corporal e não são bons disseminadores mecânicos de patógenos para humanos. Em situações especiais, como acontece nos CTIs, os pacientes, sedados e com muitas soluções de continuidade na pele e mucosas, se tornam fonte de alimentos e também potenciais foco de bactérias.

                Considerando etologia das formigas, o risco de veiculação de bactérias entre pacientes parece menor que o risco de auto-infecções (contaminação de soluções de continuidade de um mesmo paciente por bactérias trazidas por formigas de outra parte do corpo do mesmo paciente). Contudo, é conhecida a possibilidade dos ninhos de formigas agirem como reservatórios de bactérias patogênicas.

Posto que nossos resultados sugerem maior contaminação das formigas colhidas diretamente nos pacientes que das colhidas no ambiente, sugerimos que estudos similares futuros repitam essa comparação.

                Nossos achados nos permitem discordar de James e Harwood (1973) que atribuem às formigas “a very minor role in the dissemination of pathogenic organisms”[15]: embora em termos genéricos essa afirmação possa ser verdadeira (aparentemente são vetores mecânicos pouco eficientes), sua importância na veiculação de bactérias patogênicas numa situação de alta vulnerabilidade como nos Centros de Terapia Intensiva não nos parece tão pequena. Se considerarmos também o desconforto que causam e o impacto da sua presença na confiança que familiares têm no serviço (o que mina a relação médico/familiares) o seu controle torna-se imperativo.

                Medidas de controle dos insetos devem incluir diminuição da disponibilidade das fontes de alimentos e água - principalmente restos deixados pela equipe na copa e sala de prescrições - e de soluções na sala de preparo; asperção de inseticidas com ação residual e eliminação das colônias estabelecidas dentro do CTI. Ao serem percebidas em algum leito, faz-se necessário identificar o seu trajeto para destruição das trilhas de ferormônios. Proteção de ferimentos vulneráveis e inspeção cuidadosa do leito antes da realização de procedimentos invasivos de alta vulnerabilidade, como a implantação de catéteres intracardíacos, é recomendada.

O uso de inseticidas nos parece mandatório: ao final deste estudo foram feitas três aspersões de inseticida de ação residual, com ótimo efeito. Contudo, oito meses após a última aspersão, operárias de P. longicornis voltaram a ser vistas nas janelas do CTI: a ameaça não deixou de existir, havendo necessidade de contínua vigilância.

Agradecimentos: A Antônio dos Santos Maciel, do Laboratório de Bacteriologia do Hospital João XXIII, pela realização das culturas e identificação das bactérias.
A Luzia Márcia Araújo e Geraldo Wilson Afonso Fernandes, do Laboratório de Ecologia de Herbívoros Tropicais - Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais - pela identificação das formigas.

BIBLIOGRAFIA:


[1]Sanitarista e Residente em Infectologia do Hospital Eduardo de Menezes - FHEMIG.
[2]Intensivista. Coordenador do CTI do Hospital João XXIII - FHEMIG


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[15]JAMES, M.T., HARWOOD, R.F. Herm’s Medical Entomology. 6a ed. (London): The MacMillian Company Collier-MacMillan Limited, 1973. p397.


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