Referência: Campos, M.A. Redução de Danos também é luta
antimanicomial. Jornal “Agora” número
8146, página 2, de 20 de Maio de 2005, da cidade de Rio Grande – RS.
Redução
de danos também é luta antimanicomial
Historicamente,
pessoas que usam drogas têm sido consideradas público-alvo para os serviços de
saúde mental e sofrido com a mesma falta de clareza quanto aos critérios
que justificam seu tratamento e isolamento da sociedade. Grande parte das internações nos hospitais psiquiátricos é de pessoas diagnosticadas como portadores de “dependência de drogas”, em geral de álcool.
que justificam seu tratamento e isolamento da sociedade. Grande parte das internações nos hospitais psiquiátricos é de pessoas diagnosticadas como portadores de “dependência de drogas”, em geral de álcool.
Assim como,
por muito tempo, os manicômios se prestaram a servir como prisões, para retirar
do convívio social as pessoas classificadas como "loucas", o mesmo
acontece hoje com pessoas que usam drogas, criminalizadas pela Lei de
Entorpecentes e classificadas de doentes mentais pelos manuais de psiquiatria.
Para piorar, essa mudança de status
das pessoas que usam drogas de "criminosas" para "doentes"
é apresentada como "progresso" por algumas correntes
"antidrogas", como a (in)"Justiça Terapêutica", que diz:
"ou se trata ou é preso".
Existe
dificuldade para definir, tanto para pessoas que usam drogas como para pessoas
apontadas como “loucas”, quando o uso de “drogas” ou a "loucura"
torna-se doença: a tendência tem sido resolver esse impasse com simplismos mais
moralistas que técnicos, os critérios sendo em geral definidos por poderes
médicos, jurídicos e religiosos.
Ocorre que,
para além da patologização pela medicina e da criminalização pela lei
(repita-se, mais moralistas do que técnicas, fundadas em interesses
corporativistas e sustentadas por interesses sócio-econômico-políticos
contrários ao bem-comum) existe outra alternativa.
É aqui que
entra a Aborda como movimento social, não apenas para denunciar o fracasso
ético e prático da "luta antidrogas", mas também para apontar as
diretrizes dessa outra alternativa, baseadas em disposição para a tolerância,
direitos humanos e respeito mútuo, sem cair na defesa de “privilégios dos
drogados” e buscando maior bem estar para todos, usuários ou não de drogas
legais ou ilegais e pessoas que convivem com eles ou elas.
Os
referenciais são simples. Assim como, para definir se alguém tido como “louco”
deve ou não ser internado o que interessa é qual o grau de capacidade que essa
pessoa tem de cuidar de si mesma e de conviver em sociedade, ao avaliar
situações de uso de drogas o que interessa é o que o uso de drogas tem de
perigoso ou seguro, funcional ou disfuncional, respeitoso ou desrespeitoso em relação
aos direitos alheios. Mas para existir convivência, cabe perguntar: qual a
disposição da sociedade em respeitar, cuidar e acolher essas pessoas? É mais
uma questão de capacidade ou de disposição para a convivência?
Temos ainda
de evitar dois equívocos muito comuns: tomar as pessoas que usam álcool e
outras drogas de forma problemática como “modelo
das pessoas que usam drogas”, quando estas são absoluta exceção, levando a
tomar o simples fato de ser usuário de drogas como critério para indicar
internação, seja para tratamento médico ou penal, o que é afronta à ciência e
aos direitos humanos, assim resultando em procedimento mais perverso e adoecido
que o efeito de qualquer droga.
O outro
equívoco é achar que a presença ou ausência de "dependência" é o mais
importante, quando o que realmente interessa não é "ser ou não ser
dependente",
mas como gerenciamos nossas "dependências", como elas impactam nossas vidas e a das pessoas com quem convivemos.
mas como gerenciamos nossas "dependências", como elas impactam nossas vidas e a das pessoas com quem convivemos.
Acrescente-se
o fato de os critérios tanto da OMS como da Associação Americana de Psiquiatria
para diagnosticar "uso abusivo" ou "dependência" de
drogas serem muito ruins, deixando as pessoas à mercê de interpretações
subjetivas sobre o uso.
O Movimento Antimanicomial, portanto,
interessa muito à Redução de Danos. É oportunidade para juntar forças e mostrar
que os mesmos confusos critérios que isolaram os ditos "loucos" - e
que só agora começam a ser abandonados com as conquistas antimanicomiais –
ainda permeiam a forma de ver e agir com pessoas que usam drogas. E que não
precisamos de “luta antidrogas”, mas de disposição para convivência mutuamente
respeitosa, com ou sem drogas.
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