sábado, 28 de julho de 2012

Série "drogas" - Texto 6 - RD e HIV


DROGAS E REDUÇÃO DE DANOS:


 ABORDAGENS PARA PESSOAS VIVENDO COM HIV E AIDS[1]


Marcelo Araújo Campos
Domiciano José Ribeiro Siqueira
Francisco Inácio Bastos




Assuma o controle!

(slogan da Associação Brasileira de Redutores de Danos)





Introdução




Portadores do HIV (vírus da imunodeficiência humana) e pessoas vivendo com AIDS não raro têm alguma proximidade com o tema “drogas”: cerca de 20% das pessoas que vivem com AIDS no Brasil foram presumivelmente infectadas devido ao uso compartilhado de seringas e agulhas (e, em menor proporção, dos demais equipamentos envolvidos na preparação e administração de drogas), quando do consumo de drogas (majoritariamente a cocaína) por via injetável. Além disso, 36% dos casos de AIDS registrados entre mulheres no País são atribuídos a relações sexuais desprotegidas (ou seja, sem o uso de preservativos) com usuários de drogas injetáveis (UDIs).

Há relação indireta entre consumo de drogas e contágio pelo HIV, pela possível diminuição no “auto-cuidado” sob efeito de drogas (como, por exemplo, quando alguém diz que vai “beber uma cervejinha e sair para paquerar”), ou a troca de sexo (freqüentemente sem o uso de preservativos) por drogas ou dinheiro para financiar o consumo: 43,4% dos usuários de crack contatados por um estudo em São José do Rio Preto (SP) eram portadores do HIV (ABORDA, 2000). O consumo de crack se mostrou também como um dos principais fatores de risco para a infecção pelo HIV em uma amostra de trabalhadoras do sexo de Santos (SP) (SZWARCWALD et alii, 1998).

Usuários habituais de drogas (UDs), sejam estas legais, como o álcool, ou ilegais, como a cocaína ou o crack, são freqüentemente mais vulneráveis à infecção pelo HIV (e outras infecções de transmissão sexual e/ou sangüínea). Isto ocorre tanto em função de fatores orgânicos (como abordaremos a seguir), como de fatores indiretamente vinculados ao consumo, destacando-se as conseqüências sociais adversas de hábitos e práticas fortemente estigmatizados e mesmo criminalizados.    

Além disso, os consumidores habituais de drogas apresentam pior prognóstico uma vez infectados e/ou doentes, fato agravado pelo precário atendimento em serviços de saúde pouco capacitados a atendê-los em suas especificidades, de forma resolutiva e não segregante.

Apesar dessa estreita relação, a abordagem do assunto por parte das instituições responsáveis pela assistência à saúde se identifica, de um modo geral, com a abordagem tradicional, onde o objetivo único e considerado aceitável é “não usar drogas” ou “parar de utilizá-las a curto prazo”, o que constitui nível de exigência por demais elevado para parcela substancial dos usuários que não querem, não podem ou não conseguem atingí-lo dentro de um determinado prazo e em um dado contexto.

As propostas de redução de danos (RD) vêm oferecer conjunto de alternativas preventivas e terapêuticas que não segregam, mas, ao contrário, integram essas pessoas, dentro de uma perspectiva renovada, na qual o que interessa não é a abstinência obtida a qualquer custo e em prazo curto, mas a convivência menos danosa (ou mesmo não-danosa) com o uso de drogas. Essa proposta não exclui a abstinência como uma alternativa, obviamente, “radical”, já que não existem danos decorrentes do consumo de drogas na ausência desse consumo. A abstinência, contudo, é apenas possível, a curto prazo, para um subconjunto de usuários de drogas.

As propostas de RD no Brasil não seriam hoje tão visíveis nem tão desenvolvidas sem o suporte do Ministério da Saúde, suporte este deflagrado por uma das conseqüências mais graves do uso de drogas na cena contemporânea - a epidemia de AIDS. As ações até o momento implementadas pelo Ministério da Saúde, desencadeadas em grande medida por aquela epidemia, vêm fazendo com que a sociedade tome conhecimento dos usuários de drogas e interaja com eles de forma mais lúcida e resolutiva (CAMPOS, 1995).

Outro fator de vulnerabilização à infecção pelo HIV e de prognóstico adverso é que existe, em todo o mundo, grande concentração de usuários de drogas internos no sistema carcerário, onde o acesso a tratamento é extremamente deficiente e as oportunidades de auto-cuidado são mínimas.

Este capítulo buscará apresentar a proposta de redução de danos numa perspectiva que leva em consideração a visão de mundo dos usuários de drogas, mais especificamente daqueles usuários de drogas vivendo com HIV e AIDS, visando construir formas de gerenciar riscos e danos eventualmente decorrentes dos seus hábitos de consumo.

Por que “Redução de Danos”? Todo uso de drogas causa danos?



Não, nem todo consumo de substâncias psicoativas (categoria genérica à qual pertencem as substâncias que denominamos “drogas”) é necessariamente danoso à saúde nem caracteriza “doença mental”. Esta é uma limitação intrínseca do conceito veiculado pela expressão “redução de danos”: sugerir que todo uso “faz mal” ou é ruim. Ocorre que a expressão surgiu num contexto de resposta a padrões de uso que implicam riscos e danos potenciais – de transmissão de agentes infecciosos, além de danos à saúde decorrentes do próprio consumo das substâncias – portanto, contribuindo indiretamente para o mito de que todo contato com as drogas seria invariavelmente perigoso.

Cabe lembrar que aqui limitaremos o significado de “drogas” a substâncias que alteram as sensações e o psiquismo, sejam elas legais ou ilegais,[2] substâncias estas com as quais as pessoas têm contato por motivos diversos: recreativos, instrumentais (para “render” mais no trabalho ou estudo), como fonte de alívio de desconfortos físicos ou psíquicos, como tratamento médico ou apenas como um dos prazeres da vida.

A estratégia de Redução de Danos trabalha diretamente com aquelas pessoas que não querem, não podem ou não conseguem abandonar as drogas, representando uma alternativa para a promoção da saúde no sentido mais amplo, e ao mesmo tempo próxima da realidade na qual estão inseridos os UDs. Essa proposta é o que chamamos “Redução de Danos”.[3]



Algumas drogas, os tais “danos” e sua redução




Álcool

            O álcool é uma das drogas lícitas mais amplamente consumidas, e, no Brasil, seu consumo não só é tolerado, mas incentivado como demonstração de “bem viver”, além de ser fonte de vultosos lucros. Seu uso em nosso país é regulamentado por leis que proíbem a sua comercialização para menores de 18 anos e estabelecem limite da quantidade que pode ser ingerida para execução de algumas atividades, como dirigir.[4] A variedade de formas de apresentação e marcas comerciais de bebidas alcoólicas é imensa, sejam elas de origem destilada ou fermentada, com os destilados habitualmente possuindo maior concentração do princípio ativo, o etanol. Além do etanol (o álcool mais comum), as bebidas freqüentemente contêm corantes, aditivos, compostos vegetais, essências etc., que podem ter efeitos danosos ou benéficos, como no caso dos componentes do vinho tinto, protetores do coração, mas potenciais desencadeadores da enxaqueca. As bebidas alcoólicas são classificadas como depressoras do sistema nervoso central.

            Há situações nas quais, por falta de outras fontes de energia ou questões culturais, as bebidas alcoólicas são ingeridas como parte da dieta. Exemplos disto são os catadores de papel, os “bóias-frias”, os trabalhadores da construção civil e outros, que lançam mão do álcool como fonte de energia para o trabalho (com riscos potenciais de acidentes), e os povos mediterrâneos, para quem o vinho é parte habitual e essencial das refeições.

            Enquanto para a maioria dos psicoativos existe relação direta entre quantidade usada e dano à saúde, o álcool apresenta curva “bifásica” que lembra um “J”: doses baixas são “saudáveis” (no sentido de gerarem efeitos positivos sobre determinados órgãos e sistemas), e doses altas são potencialmente danosas. Existem variações individuais na sensibilidade aos seus efeitos. Os efeitos relaxantes e euforizantes (que podem se refletir em comportamento agitado) das doses baixas estão relacionados à depressão de regiões “disciplinadoras” do cérebro: quando seu papel regulador é inibido, sobrevém euforia, por vezes mesmo ansiedade e agitação psicomotora. Doses altas aprofundam a inibição de  áreas extensas do cérebro, cerebelo e tronco cerebral, podendo inclusive dar lugar a coma e parada respiratória, por “desligamento” dos centros controladores da respiração. Em geral, muito antes de se chegar a esses efeitos, já se manifestam vômitos, uma forma de o organismo dizer “chega” e impedir que ocorram maiores danos.

            Os efeitos do álcool, como de qualquer outra droga, são influenciados pelo estado emocional de quem dele se utiliza: se o indivíduo está alegre e de bem com a vida, a embriaguez poderá favorecer manifestações (por vezes exageradas) dessa alegria; já se está angustiado ou emocionalmente mal, a embriaguez poderá potencializar esse mal-estar, com crises de choro e depressão. Pessoas em momentos de fragilidade psicológica, instáveis ou portadoras de distúrbios psiquiátricos podem ter seus quadros agravados com a ingestão do álcool (ou de outros psicoativos).[5]

            Por ser irritante para o cérebro, o etanol facilita a ocorrência de convulsões (principalmente em quem já as teve ou possui lesão cerebral, como na toxoplasmose cerebral). O álcool pode também desencadear ou agravar quadros de pancreatites, hepatites, neuropatias, demência, desnutrição, derrames cerebrais e infartos (embora tenha efeito protetor em relação às doenças cardíacas, se utilizado em doses baixas), distúrbios da coagulação do sangue (naqueles com algum grau de insuficiência hepática), agravos estes relativamente comuns entre pessoas que vivem com HIV/AIDS. Além disso, o álcool potencializa efeitos perigosos de outros medicamentos, principalmente calmantes e soníferos, que podem ter efeitos colaterais perigosos quando a ele associados. O álcool aumenta ainda o risco de infecções, por prejudicar o funcionamento das células de defesa (é comum a associação entre tuberculose e pneumonias e o alcoolismo), podendo aprofundar a imunodeficiência dos portadores do HIV, perturbar o tratamento com anti-retrovirais e medicamentos profiláticos devido à desorganização das rotinas de auto-cuidado e da possível interação negativa com os diferentes medicamentos em uso.

            Grande parte dos danos à saúde dos usuários “pesados” de álcool decorre da desnutrição - ingesta inadequada de alimentos -, já que o álcool supre as necessidades de energia e pode fazer com que o indivíduo perca a fome. A reposição de vitaminas por meio de alimentação balanceada (principalmente com a ingestão de frutas e verduras) ou de suplementos vitamínicos (complexo B e, principalmente, a vitamina B-1 ou Tiamina) constitui importante estratégia de RD. Sugere-se legislação que torne obrigatória a inclusão de tiamina nas bebidas alcoólicas (assim como o iodo é acrescentado ao sal e o flúor à água), buscando evitar quadros neurológicos graves dos alcoolistas “pesados” – como a síndrome de Wernicke-Korsakoff e as polineuropatias – causadas, em grande medida, pela falta de tiamina nos usuários “pesados” de etanol que não se alimentam adequadamente. A implementação desta legislação vem esbarrando na resistência das indústrias produtoras de bebidas, sob a alegação de possível elevação dos custos de produção.

            Pessoas que estão sob efeito de álcool são mais vulneráveis a violências, assaltos, estupros e outras agressões, pela redução da percepção de vulnerabilidade e/ou sensação de onipotência. Além disso, a desinibição provocada pela embriaguez também pode facilitar a ocorrência de comportamentos anti-sociais ou mesmo criminosos em pessoas predispostas a esses atos. Esses danos “indiretos” do álcool são provavelmente mais importantes (em termos de danos sociais globais) que os danos diretos à saúde e não podem ser negligenciados no planejamento das ações de redução de danos. Dessa forma, a redução de danos do álcool inclui abstinência para aqueles que não têm controle sobre seus padrões de consumo, diminuição da quantidade ingerida ou “beber controladamente” (o que é possível mesmo para alguns usuários “pesados” e que já tiveram problemas graves com o alcoolismo). Este “beber controlado” inclui considerar quantidade, momentos, contextos e outros cuidados, de modo a evitar acidentes e não negligenciar as demais atividades de auto-cuidado (higiene, sono, alimentação, cuidados de saúde, adesão a tratamentos com as diferentes medicações), além de maior atenção em relação a atividades tornadas inseguras ou mesmo incompatíveis com a embriaguez (dirigir, realizar algumas atividades profissionais como operar máquinas, nadar, praticar sexo seguro).

Finalmente, é necessário lembrar que portadores de HIV não raro também são portadores de hepatites virais tipo B ou C: para essas pessoas, o uso do álcool, mesmo em doses “pequenas”, pode representar uma agressão suplementar ao fígado já lesado.

            Para mais detalhes sobre a interação entre o tratamento dos portadores do HIV e a ingestão de álcool, veja adiante o tópico “Interação entre consumo de drogas e infecção pelo HIV”.



Cocaína injetável


A cocaína é um sal facilmente solúvel em água, com efeitos anestésicos no ponto de inoculação e estimulantes sobre o cérebro e o sistema nervoso central. O efeito da injeção intravenosa dura por volta de 30 a 40 minutos (conforme a quantidade e a qualidade da droga). Além dos efeitos estimulantes no cérebro, a cocaína aumenta os batimentos cardíacos e a pressão sangüínea e causa estreitamento dos vasos sangüíneos (o que pode ser perigoso por facilitar infartos ou acidentes vasculares cerebrais, os “derrames”).

Os danos mais comuns entre os usuários de cocaína injetável são as infecções decorrentes da inoculação de sujeira presente nas mãos que manuseiam os aparatos de uso (copinho, seringa, filtro, água) ou de bactérias da própria pele, que são levadas para o interior do organismo se não for feita limpeza (assepsia) no local da picada. Estas bactérias podem causar abscessos no ponto da injeção, infecções no coração (endocardites) ou outros órgãos internos onde venham a se instalar, além de poderem se reproduzir no próprio sangue e causar infecção generalizada (septicemia), principalmente em pessoas debilitadas. Outro risco muito temido é a transmissão de doenças por sangue contaminado, como as hepatites B e C (raramente, a hepatite A), infecções pelo HIV, HTLV I e II (vírus causadores das leucemias/linfomas das células T e de uma doenças neurológica denominada paraparesia espástica) e, menos comumente, sífilis, doença de Chagas e malária. Os citomegalovírus e os vírus da herpes podem ser transmitidos pela via parenteral (sangüínea), e constituem preocupação maior para portadores do HIV, a quem podem causar doenças graves.

            A cocaína não é isenta de impurezas e contaminantes, tanto do próprio pó, cuja preparação e acondicionamento pelas pessoas que o vendem não observam os cuidados com assepsia, quanto das impurezas acrescentadas pelos distribuidores e revendedores (tais como o fermento químico em pó, amido de milho ou trigo, talco) (SAMPAIO et alii,2000), os quais podem estar contaminados com bactérias e fungos. O fato da cocaína ser mercadoria ilícita contribui para a inexistência de controle de sua qualidade. É possível que, num mercado lícito e de fato regulamentado, a cocaína tivesse sua qualidade melhor controlada, com menores riscos para os consumidores. O próprio mercado talvez se encarregasse de eliminar as “marcas” menos puras (o que ocorre, em certa medida, nos mercados norte-europeus, pela atuação das associações de usuários de drogas no sentido de controlar a pureza dos produtos comercializados). O uso de drogas com grau de pureza desconhecido pode levar à exposição a doses maiores que as calculadas. Para evitar o risco de overdose, o usuário não deve nunca injetar o conteúdo de uma seringa de uma vez, mas uma pequena dose primeiro, avaliando então seu efeito. O ideal seria aplicar sempre na companhia de alguém “de cara limpa”.

Como raramente tem treinamento em técnicas de punção venosa, após anos de consumo pesado o usuário acaba por provocar fibrose e desaparecimento (colabamento) das veias superficiais. Assim, a aplicação se torna cada vez mais difícil. Isso é especialmente verdade entre as mulheres, cujas veias são menos visíveis e mais frágeis. A punção de veias em locais inadequados, como ferimentos já abertos, inclusive infeccionados, acrescenta o risco de levar para o sangue pus ou sujeiras da ferida (além de impedir a cicatrização pelas repetidas agressões ao tecido). De especial risco são os ferimentos com crostas ou pontos de necrose – tecido enegrecido e morto nas bordas ou fundo da ferida –, que apresentam condições ideais para o desenvolvimento de bactérias anaeróbias causadoras do tétano. Ensinar como puncionar uma veia aos UDIs evita grande parte das complicações decorrentes da má técnica – inclusive as infecções –, além de preservar suas veias.

Kits com material de prevenção e instruções quanto ao seu uso são habitualmente distribuídos pelos Programas de Redução de Danos do País, e contêm camisinhas, seringas limpas, água destilada, potinho, papel com álcool (para limpeza da pele), além de folheto com orientações, inclusive sobre como puncionar veias e onde buscar cuidados de saúde.

Entre as estratégias de redução de danos entre consumidores de cocaína injetável há tanto as ações de caráter preventivo como as de redução de danos propriamente ditas. Vacinas contra a hepatite B e o tétano são obviamente preventivas.

Cuidados gerais de higiene constituem ótima estratégia de RD em relação ao consumo de qualquer droga. Deve-se sempre lavar bem as mãos antes de iniciar o preparo. Devem-se utilizar sempre seringas novas e estéreis, mesmo quando se usa sozinho. Caso não haja outra alternativa que limpar seringas (por exemplo, nos presídios, onde o acesso a seringas novas é limitado e sua distribuição nem sempre aceita), deve-se considerar que a concentração mínima necessária da água sanitária (hipoclorito de sódio) é de 4,25%, e mesmo com esta concentração pode-se não obter a completa dissolução dos coágulos presentes nas seringas. Os demais equipamentos utilizados no preparo (potinhos e colheres) também devem ser limpos. Em se tratando de seringas de vidro, é necessário lavá-las e depois fervê-las por pelo menos 20 minutos (iniciar a contagem de tempo a partir do momento em que a água começar a ferver). Existe um estudo da equipe do projeto ALIVE, liderada por David Vlahov (Baltimore, EUA), que mostra como as pessoas tendem a fazer a limpeza das seringas de maneira não eficaz, mesmo quando relatam estar seguindo rigorosamente os procedimentos recomendados. Isso reforça a inadequação de se reaproveitarem seringas e a necessidade de se combater essa prática.

Deixar apenas de compartilhar seringas não constitui, entretanto, alternativa totalmente segura: UDIs que só usam a própria seringa, sem compartilhá-la, mas que as reutilizam, continuam sob risco, pois o uso de agulhas rombudas e sujas é causa de infecções e lesões nas veias.

Acidentes como a injeção fora da veia e a quebra da agulha dentro da pele devido ao tremor da fissura ou ao uso de agulhas usadas/enferrujadas em locais escuros e sujos são também fatores de risco. Desvantagem adicional para os usuários (e argumento sensibilizador para eles) é o fato de os coágulos nas seringas usadas poderem, durante a injeção, entupir a agulha, impedir a injeção e provocar a perda da dose preparada.

É aconselhável diluir a droga com água esterilizada em potinhos ou colheres, de fato, limpos – se possível fervidos ou limpos com álcool. A saliva não limpa a agulha nem a pele: pelo contrário, é contaminada com bactérias que podem ser perigosas, caso sejam injetadas. Devem-se utilizar sempre filtros de algodão limpo, manuseados com as mãos limpas, e passar álcool no local da picada, preferindo as veias mais grossas e profundas. O usuário deve estar ciente de que as “veias” que pulsam, cujo sangue é muito vermelho e enche a seringa mesmo sem ser aspirado, são artérias e ele nunca deve injetar cocaína nelas. A cocaína provocará estreitamento ou mesmo “fechamento” da artéria, impedindo o braço, mão ou qualquer extremidade de receber o sangue levado por esta artéria, o que pode causar necrose e perda do membro. Ele deve também evitar injetar em veias dos pés ou pernas, principalmente em varizes, devido ao risco de formação de coágulos que podem causar entupimento de outros vasos ou órgãos, por exemplo, veias do pulmão ou do cérebro, causando trombose. Também é perigoso injetar em locais da pele onde existam ferimentos ou infecções. Deve-se tratar qualquer infecção que aparecer na pele e cuidar da saúde, alimentando-se bem, dormindo e bebendo bastante água (principalmente se houver o hábito de usar cocaína associada a bebidas alcoólicas). A cocaína também faz perder o apetite e pode levar ao emagrecimento rápido (veja detalhes sobre o crack, adiante). Finalmente, é importante injetar pequeno volume e lentamente, para permitir uma avaliação do efeito.

Se o indivíduo for portador do HIV temos que lembrar os seguintes pontos: quem tem contagem de células CD4+ abaixo de 200/mm3 está sob maior risco de infecções por bactérias, sendo indicado o uso contínuo de antibióticos profiláticos, como sulfametoxazol-trimetoprim (Infectrim®, Espectrim®, Bactrim® e outras marcas), ou outros, a critério médico. Esse risco estará provavelmente aumentado, mesmo se a contagem de células CD4+ estiver acima de 200/mm3, se tiver ocorrido infecção anterior, mas não justifica o uso de antibióticos por conta própria (seja ou não o indivíduo portador do HIV), como fazem alguns UDs quando percebem febre. Esses antibióticos podem determinar a seleção de bactérias resistentes e o mascaramento de infecções como as endocardites (que podem passar despercebidas se houver o uso concomitante de antibióticos, evoluindo então com mais gravidade), fazendo com que haja maiores dificuldades de diagnóstico e tratamento. Vale lembrar que as impurezas presentes nas drogas, uma vez injetadas nas veias, também podem causar febre sem que necessariamente haja infecção.

Caso seja feito uso de qualquer medicação contra convulsões ou para tratamento psiquiátrico (por exemplo, fenobarbital, hidantoína, haloperidol, calmantes) é necessário considerar que a cocaína pode atrapalhar o tratamento desencadeando convulsões, perturbando o sono ou provocando mais agitação. Se o usuário sofre de psicose, existe o risco de se desencadear um surto psicótico: é boa idéia informar a quem cuida do usuário sobre o consumo da cocaína e sobre os remédios que este utiliza, para orientação médica em caso de complicações.

Alguns portadores de HIV têm um cateter permanente implantado (geralmente sob a pele no peito, conectado à veia que entra direto no coração), e perguntam sobre seu uso para injeção da solução de cocaína. Nossa opinião é que a injeção nesse cateter é de altíssimo risco, pois a cocaína provoca vários efeitos adversos sobre o coração (os casos de morte por overdose de cocaína estão freqüentemente relacionados a complicações cardíacas), como espasmo das artérias coronárias que pode resultar em infarto agudo e parada cardíaca, além do perigo de contaminar o cateter e torná-lo inviável (do ponto de vista da administração dos medicamentos), levando à necessidade de sua retirada. Este é um complicador grave do tratamento, já que, em geral, as pessoas que usam cateter permanente estão em tratamento contínuo com drogas muito necessárias, cuja interrupção pode ter conseqüências graves, como a perda da visão, no caso de o cateter estar sendo usado para aplicações de Ganciclovir.



Cocaína inalada, merla e crack


A cocaína inalada é o mesmo pó acima descrito, usada por inalação. Merla e crack são sais de cocaína associados a outras substâncias de modo a tornar sua evaporação mais fácil, permitindo ao usuário “fumar” esses vapores.

A cocaína “cheirada” causa vasoconstrição (estreitamento dos vasos) na mucosa nasal, que, com o uso continuado, pode sofrer ulcerações e necrose, inclusive com perda do septo nasal. Essas ulcerações podem provocar sangramentos, mesmo pequenos, sujando com sangue e secreções os tubos usados para a inalação. Ao serem compartilhados, os tubos podem transmitir infecções. Há suspeitas de que o HIV possa ser transmitido assim, e o vírus da hepatite C seguramente o é. Portanto, umas das estratégias de RD é cada um utilizar o próprio canudo e controlar a quantidade e a freqüência das inalações, de maneira a não provocar ulcerações na mucosa, permitindo que ela cicatrize.

Usuários “pesados” de crack aspiram grande quantidade de impurezas resultantes da queima das “pedras”, que contêm ácido sulfúrico, querosene, metanol, ácido benzóico e outros solventes (além do bicarbonato e das cinzas usadas para aquecer as pedras) e essas impurezas são muito irritantes para o aparelho respiratório, causando sinusites, bronquites, pneumonias químicas, agravando a asma e facilitando a ocorrência de pneumonias bacterianas. A tosse induzida (ou piorada) dos usuários “pesados” de crack é facilitadora da transmissão da tuberculose entre eles, às vezes reunidos para fumar em locais mal ventilados e escuros - de modo a evitar a polícia -, mas expostos a condições ideais para a propagação do bacilo. Essas mesmas circunstâncias são freqüentes no contexto de consumo de outras drogas e ajudam a explicar a alta prevalência de tuberculose entre UDs.

O programa de Redução de Danos de Santos (SP) vem distribuindo filtros para serem adaptados aos cachimbos, com bom resultado na redução da quantidade de fuligem e outros contaminantes que os usuários inalam quando fumam o crack. Cabe observar, no entanto, que nem todos os usuários utilizam cachimbos (qualquer lata pode ser usada), e não há no momento filtros adaptáveis aos muitos tipos de aparatos usados para fumar as pedras (VILARINHO, 2000). Alguns usuários alegam que portar o cachimbo os denuncia como usuários de crack, e preferem improvisar seus aparatos, sem o uso de filtros.

A distribuição de cachimbos com filtros vem sendo aventada, mas não resolve a questão do sigilo. Os filtros devem ser descartados a cada “fumada”, e, também, não devem ser compartilhados. Dessa forma, além de evitar a inalação dos contaminantes, é possível também prevenir infecções transmissíveis pela saliva ou pelo sangue, eventualmente presentes em lesões decorrentes de queimaduras anteriores. Por serem maus condutores de calor, os filtros evitariam ainda as próprias queimaduras, que podem transmitir os agentes infecciosos das hepatites e da herpes.

A cocaína pode determinar a perda do apetite, do sono e da sede: o uso pesado e prolongado pode levar a um consumo rápido e intenso das reservas do corpo, com emagrecimento importante. Esse emagrecimento pode ser evitado com alimentação adequada, hidratação e algumas horas de sono: o uso moderado do crack não necessariamente se faz acompanhar desses danos à saúde.

Da mesma forma que a cocaína injetável, o crack também pode causar convulsões. É bem conhecida a paranóia – “nóia” (delírios e mania de perseguição) -, secundária ao consumo dos derivados da cocaína, a qual pode durar alguns dias; pensamentos repetitivos, perda de memória, alucinações visuais e auditivas, especialmente em usuários “pesados”, passíveis de ocorrer conforme predisposição individual. Esses sintomas, assim como a ansiedade e a “fissura” que se seguem à interrupção do uso pesado, podem ser diminuídos com a associação de maconha ao crack (o “mesclado”) (LABIGALINI JÚNIOR, 2000). A substituição ou associação do crack com o álcool não é reconhecida como redução de danos, podendo, na verdade, maximizar esses danos.

Talvez mais perigosa que o emagrecimento, a asma, a inflamação dos pulmões, a tosse persistente, as sinusites, as pneumonias e o risco de acidente vascular cerebral a que os usuários pesados de crack estão sujeitos, seja a situação de proximidade e interação desses usuários com o crime e as contravenções: como todas as drogas ilícitas, os usuários ficam próximos a ambiente que explora a venda dessas substâncias e, portanto, vulneráveis à violência das regras que regem estes contextos. Não se envolver com o tráfico constitui estratégia importantíssima para a redução de danos, e nada justifica o roubo para custear qualquer hábito ou hobby, seja colecionar selos ou comprar crack.

Curiosamente (e causando preocupação), há relatos de troca de crack por uso de cocaína injetável, em Belo Horizonte, ao mesmo tempo em que se descreve a transição do uso injetável por crack, em outras localidades, como na Bahia, por medo da AIDS.



Maconha


“Maconha” é um dos nomes brasileiros da variedade da planta Cannabis sativa, rica em canabinóides psicoativos (o mais conhecido deles é o THC – tetra-hidro-canabinol). O cânhamo é uma variedade da mesma planta, pobre naquelas substâncias. Geralmente é fumada e, em doses baixas, tem efeito relaxante e levemente euforizante; em doses altas pode ser alucinógena. Ilegal no Brasil desde 1921 (no Rio de Janeiro existia legislação municipal desde 1830) foi incluída no Código Penal em 1940. Atualmente, seu consumo é legal em alguns países do Oriente, onde é consumida sob a forma de haxixe, seiva concentrada e desidratada, também fumada (no entanto, o consumo de álcool em alguns daqueles mesmos países, de religião islâmica, é considerado imoral e ilegal).[6]

Além dos efeitos psicoativos, a maconha causa diminuição da produção de saliva e, nos usuários “pesados”, isso constitui fator agravante de cáries dentárias e lesões da gengiva (a saliva é importante proteção para a mucosa da boca e para os dentes). É conhecido o efeito de aumentar o apetite (“larica”), e esse efeito, somado à diminuição de náuseas, tem levado ao uso medicinal de um dos princípios ativos da maconha (o “dronabinol”, designação do THC sintético). Existe, inclusive, formulação farmacêutica vendida no Canadá e EUA sob as marcas registradas Nabilone™ e Marinol™.

Estudo recente, que avaliou a segurança da maconha in natura ou do dronabinol em comprimidos, quando comparados com placebos, comprovou essa utilidade e não evidenciou nenhuma repercussão aparente sobre a saúde, tampouco qualquer efeito sobre a carga viral ou a contagem de linfócitos CD4+ de portadores do HIV, ou problemas com o uso de anti-retrovirais (JAMES, 2000).

            A maconha tem efeito anti-convulsivante (sendo, portanto, um dos poucos psicoativos que “pode” ser usado por pessoas com histórico de convulsões). As doses altas, alucinógenas, podem causar uma “má-viagem” (bad-trip) ou um surto psicótico, conforme o estado emocional e estrutura psíquica do usuário.

Sob efeito da maconha, ocorre perturbação da capacidade de memorizar e se concentrar, com prejuízo, portanto, das habilidades necessárias para atividades como estudar, dirigir ou operar máquinas.

 Os efeitos danosos dos cigarros de maconha para a saúde são comparáveis aos do tabaco, com a ressalva de que habitualmente ela é fumada em quantidades menores que o tabaco.

            O discurso de que seu uso é mais “natural” que o tabaco (menos contaminada com agrotóxicos, conservantes etc) só é verdadeiro para os usuários que plantam para seu consumo. Grande parte da maconha consumida na região Sudeste do País é oriunda do Paraguai e do nordeste do Brasil, sendo semi-industrializada, e contém diversos aditivos – amônia, antifúngicos, “despistadores” do aroma, agrotóxicos etc., em concentração e de qualidade não controladas, com efeitos imprevisíveis em termos de toxicologia. A prática de plantar para consumo é, contudo, limitada pela sua ilegalidade no País, e desagrada tanto aos proibicionistas como aos traficantes.

            Como todos os psicoativos ilegais, parte substancial dos danos para os usuários e para a sociedade é decorrente da marginalidade e criminalidade a que os usuários ficam expostos pelo contato com as pessoas que exploram o comércio de drogas – em ambiente habitualmente violento e à mercê de regras que ignoram o Estado de Direito –, sendo razoável repetir a recomendação de não-envolvimento com tráfico como estratégia básica de RD, além do cuidado com a execração social a que os usuários de qualquer psicoativo ilegal estão expostos.



Anfetaminas (“moderadores do apetite”, “bolinhas”, “rebites”) e anfetaminas

modificadas (ecstasy, ice)

As anfetaminas são substâncias produzidas em laboratório com objetivos médicos e utilizadas como psicoativos, pelos seus efeitos estimulantes, variáveis em intensidade conforme a estrutura química de cada anfetamina. Causam perda do apetite e são muito usadas como auxílio em dietas para perda de peso, infelizmente pouco eficazes se não acompanhadas de mudanças nos hábitos alimentares: após a interrupção do uso, se o hábito alimentar não tiver sido alterado, o peso anterior é rapidamente recuperado ou mesmo ultrapassado.

Pelo seu efeito estimulante, são também utilizadas como “ferramentas de trabalho” por pessoas que desejam permanecer acordadas por longos períodos (como motoristas de ônibus e de caminhões com cargas perecíveis). Nesta situação, ocorre exaustão compensatória após passar o efeito, o cansaço surge na sua real intensidade e o organismo cobra sua quota de descanso. A falta de apetite e a agitação constituem duas causas do emagrecimento freqüentemente observado nesses usuários, e, como no caso da cocaína, usuários “pesados” de anfetaminas podem sofrer desnutrição e emagrecimento exagerado. A exemplo do álcool e da cocaína, as anfetaminas também podem contribuir para o desencadeamento de convulsões (crises epiléticas).

Dirigir em vias públicas sob efeito de anfetaminas constitui claro desrespeito às pessoas, pelo risco de acidentes causados pelas perturbações nas habilidades necessárias à manutenção da segurança: a noção de tempo e espaço fica prejudicada (com conseqüente prejuízo da capacidade de fazer manobras, calcular tempo de ultrapassagens, ângulo de curvas etc.). Portanto, as propostas de RD incluem não usar anfetaminas (ou qualquer droga psicoativa que prejudique as habilidades motoras e sensoriais) antes de dirigir, operar máquinas ou praticar qualquer atividade que possa colocar outras pessoas em risco. Usar em local e circunstâncias seguras é boa idéia para se evitarem acidentes, o que se aplica ao uso de qualquer psicoativo.

O uso continuado causa tolerância do organismo às anfetaminas: serão necessárias doses cada vez maiores para se obter o mesmo efeito. Após alguns dias sem uso, todavia, o risco de overdose é muito maior porque o indivíduo pode querer ingerir ou injetar a mesma quantidade que utilizava antes. Como a tolerância desaparece rapidamente, a dosagem anterior torna-se excessiva e expõe esse usuário ao risco de infartos e crises de hipertensão arterial (e, eventualmente, “derrames”). Estratégias de RD para usuários de anfetaminas devem incluir orientação para reiniciar com doses baixas quando da interrupção do consumo por alguns dias.

Anfetaminas modificadas, como a metileno-dioxo-metanfetamina, cuja apresentação mais difundida é o ecstasy (ou, numa tradução possível, “êxtase”), podem provocar, além dos efeitos excitatórios característicos das anfetaminas, alteração das sensações e mesmo alucinações: há relatos de intensa sensibilidade a mínimos estímulos físicos ou emocionais. Essas substâncias são pouco tóxicas em doses baixas, embora seu consumo possa se tornar bastante perigoso quando combinado a outras substâncias em pessoas desidratadas, em ambientes fechados e quentes (ver detalhes a seguir).  

Pela sua potente ação euforizante, há quem sugira serem elas úteis no tratamento das depressões, embora o efeito “rebote” (após o término dos efeitos da droga) possa determinar depressão ainda mais intensa, necessitando-se de acompanhamento médico para o seu manejo. Essa potencial aplicação terapêutica das anfetaminas merece investigações posteriores que informem como controlar o efeito “rebote”, talvez com a associação de antidepressivos de ação prolongada. Dado o aumento da temperatura corporal e a intensificação de todo o metabolismo, além de efeitos diretos nas glândulas salivares (causando boca seca), uma estratégia de RD importante é o consumo de maior quantidade de água e outros líquidos (bebidas alcoólicas não constituem alternativas válidas, porque o álcool aumenta a diurese e, portanto, aprofunda a desidratação). Isso é particularmente importante se o consumo ocorre em locais onde a temperatura é alta e se pratica atividade física intensa, como discotecas ou “raves” (festas com músicas agitadas que se prolongam por muitas horas, em geral até o dia seguinte.

Portadores de HIV em uso de inibidores de protease (principalmente o Ritonavir) estão sob risco aumentado de overdose: o Ritonavir aumenta em até quatro vezes o efeito das anfetaminas. A suspensão do tratamento antiviral para que se usem anfetaminas é sempre um risco pois facilita o surgimento de vírus resistentes e pode anular os benefícios que os usuários poderiam lograr com o tratamento: sugerimos que se discutam as opções (utilizar doses mais baixas das anfetaminas, não utilizá-las, trocar o esquema antiviral) caso a caso, conforme a freqüência e a intensidade do uso, com profissionais da saúde.

Havendo uso intravenoso das anfetaminas, aplicam-se as medidas de RD descritas anteriormente para a cocaína.

 


Cogumelos, LSD e chás de plantas alucinógenas


Há enorme variedade de plantas capazes de induzir estados alterados de consciência, sendo difícil comentá-las sem se especificar de que planta se trata. Uma propriedade comum à maioria destas plantas e substâncias é a capacidade de provocar alucinações. Em geral, essas substâncias presentes nas plantas são ingeridas sob a forma de chás ou infusões com objetivos recreativos ou filosóficos/religiosos (LSD, cogumelos e chá do Santo Daime).

O LSD (“doce”, na gíria dos usuários) é uma droga sintética, semelhante aos produtos naturais encontrados nos fungos. A toxicidade das plantas usadas pelos rituais no Santo Daime (mistura de cipó jagube e folhas de chacrona, denominada Ayahuasca) e do LSD é extremamente baixa, mesmo quando sua potência psicoativa é intensa. Dessa forma, os riscos para a saúde associados ao consumo daquelas plantas e do LSD são limitados, embora exista o risco de se confundirem as espécies alucinógenas de cogumelos com as venenosas. Não raro, o mesmo cogumelo possui tanto substâncias tóxicas como alucinógenas, e há pouco conhecimento sobre os cogumelos brasileiros.

O LSD pode causar flash-backs (ressurgimento dos efeitos alucinógenos horas ou dias ou mesmo semanas depois do consumo), o que pode ser perigoso se ocorrerem, por exemplo, quando o indivíduo está dirigindo automóveis, e gerar ansiedade pela incapacidade de controlá-los.

Outras plantas com substâncias semelhantes à atropina, como as do gênero Datura (trombeteira, saia branca, lírio) também causam efeitos “anti-colinérgicos” em vários órgãos do corpo (alguns potencialmente danosos), mesmo em doses menores que as necessárias para causar alucinações (que podem durar horas). Entre os efeitos perigosos, está o aumento dos batimentos cardíacos e da temperatura do corpo (até mais de 40o C), este último incomum, mas com descrições de quadros muito graves e convulsões. O uso de pequenas quantidades é menos arriscado, com efeitos alucinógenos também menos  intensos.

Diversas medicações contêm o mesmo princípio ativo destas plantas, como o Artane®, o Akineton® e o Bentyl®, que ocasionalmente, em vez de serem ingeridos, são dissolvidos em água e injetados na veia. Neste caso, aplicam-se as estratégias de RD já descritas para a cocaína injetável, que aliás se aplicam ao uso intravenoso de qualquer droga.

Estratégias de RD do uso de Ayahuasca são comuns nos rituais do Santo Daime, tais como cuidados com as pessoas que estão sob seu efeito para que não se acidentem, bem como ajuda e suporte quando ocorrem vômitos e dores abdominais.

Tanto para cogumelos como para o LSD, talvez o maior risco seja o de acidentes quando sob seu efeito, o que poderá ser minimizado com o uso em ambiente seguro e com alguém lúcido (“de cara limpa”) por perto, além de se evitar misturá-los com álcool ou outras substâncias psicoativas. Como os cogumelos alucinógenos podem ser hepatotóxicos (tóxicos para o fígado), é necessário lembrar que pessoas com doenças pré-existentes do fígado podem ter seus quadros agravados, sendo ainda possível que algumas drogas usadas por portadores do HIV tenham interações com cogumelos alucinógenos, alterando mutuamente seus efeitos, de forma ainda pouco conhecida.



Heroína


A heroína é um derivado semi-sintético do ópio, sintetizada, a princípio, para uso como analgésico. Além do efeito analgésico, ela dá origem a sensações profundamente apaziguadoras e relaxantes. É classificada como depressora do sistema nervoso central, e suas ações analgésicas e relaxantes estão relacionadas ao entorpecimento, que pode atingir outras funções como a respiratória e os batimentos cardíacos. Os efeitos de diminuição dos movimentos intestinais (peristaltismo) fazem com que os opióides (mas não a heroína) sejam utilizados como antidiarréicos. No uso intravenoso, não são raros os casos de intoxicação e overdose por heroína nos países onde seu consumo é comum, principalmente devido a concentrações desconhecidas, contaminantes e misturas de diferentes substâncias. Dessa forma, uma estratégia de RD fundamental é o uso de pequena dose para avaliar a pureza e seu efeito antes se de injetar a dose restante.

            O fenômeno de desenvolvimento de “tolerância” descrito para usuários freqüentes de anfetaminas também ocorre com usuários habituais de heroína, sendo um dos fatores responsáveis por casos de overdose ao se reiniciar o uso após período de abstinência. A tolerância à heroína pode exigir doses até 100 vezes maiores que as iniciais para a obtenção de efeitos similares. Indivíduos que utilizavam grandes doses e ficaram abstinentes só podem reiniciar o consumo com doses pequenas.

            Todos os cuidados necessários ao preparo de doses injetáveis descritos para a cocaína (do lavar as mãos ao cuidado com a pele e com as veias, das vacinas ao tratamento das infecções) se aplicam aos usuários de heroína. O fato de seu preparo exigir calor para a diluição (ao contrário da cocaína, que se dissolve bem à temperatura ambiente), e de seu efeito durar horas (enquanto a cocaína injetável dura menos de uma hora), com necessidade de menor número de aplicações, ajuda a explicar por que os usuários de heroína são relativamente menos vulneráveis (frente aos usuários de cocaína) a infecções por bactérias ou fungos que possam estar na droga ou na água, ou a infecções transmissíveis pelo compartilhamento do aparato de preparo e consumo. Os riscos são menores, mas de forma alguma inexistentes: além de o calor não ser suficiente para a esterilização (que seria a eliminação de todos os esporos de bactérias, os vírus e os fungos), durante a aplicação o sangue aspirado para a seringa a contamina.

A substituição da heroína injetável pela metadona oral é bastante vantajosa em termos de RD. Essa vantagem é ainda maior se levarmos em conta que o efeito mais prolongado da metadona, ao exigir menos doses diárias, “liberta” o usuário para fazer outras coisas não relacionadas à obtenção, preparo e consumo de drogas, ampliando seu repertório de atividades cotidianas e suas perspectivas de vida.

Deve-se lembrar que a metadona tem seus efeitos alterados em portadores do HIV que estejam se tratando com Ritonavir (redução de até 37% da ação da metadona), Nevirapina e Efavirenz (redução de até 60% do efeito da metadona). Essa interação não parece ser impeditiva do uso dos anti-retrovirais, mas pode exigir ajuste da dose do opiáceo.

Não existem programas de fornecimento de metadona no Brasil, onde o consumo de heroína e ópio, no momento, é pouco relevante. A introdução, com boa adaptação, da papoula na Colômbia já vem fazendo com que aquele país se torne fornecedor de ópio e seus derivados para o mercado ilegal. Como algumas rotas de tráfico passam pelo Brasil, se espera um aumento, em médio prazo, do número de usuários desses produtos devido a uma maior oferta. As características sociológicas/comportamentais dos usuários de heroína provavelmente serão diferentes das dos usuários de cocaína, o que poderá levar à necessidade de revisão das técnicas dos programas de RD ora em operação no Brasil, cuja experiência de trocas de seringas restringe-se a usuários dessa última.

 


Tabaco


O tabaco é planta nativa das américas, rica em uma substância estimulante do sistema nervoso – a nicotina –. É consumido sob a forma de pós para inalação (rapé), de folhas secas para mastigação ou de cigarros, charutos e fumo para cachimbo, modalidades estas mais comuns e difundidas. A nicotina tem efeitos sobre a capacidade de concentração e rapidez de raciocínio, podendo também atuar como relaxante muscular e levemente euforizante/anti-depressivo.

A fumaça dos cigarros, charutos e cachimbos de tabaco possui muitas substâncias agressivas para as mucosas da boca e do aparelho respiratório, e tóxicas para o corpo de um modo geral. A nicotina, nas doses habitualmente obtidas com a fumaça dos cigarros, não causa perturbações no funcionamento cerebral que justifiquem sua restrição no desempenho de atividades que exijam capacidade de decisão ou habilidades motoras.

Portadores do HIV sofrem maior risco de desenvolvimento de doenças das gengivas, periodontites e cáries dentárias, que podem ser agravadas pelo uso contínuo do tabaco, fumado ou mascado. Visitas mais freqüentes ao dentista e maior cuidado com a higiene bucal, com pronto tratamento de lesões iniciais, constituem sugestões para RD de tabaco. Da mesma forma, profissionais responsáveis pelo check-up de pessoas que fazem uso intenso e prolongado de tabaco – os chamados fumantes “pesados” - devem estar atentos para a detecção precoce de cânceres da boca, garganta, pulmões e bexiga, só para citar os mais freqüentes.

Fumantes “pesados” de tabaco também devem ser alertados sobre sua maior vulnerabilidade a complicações comuns em tabagistas e ainda mais comuns em portadores do HIV, como derrames e tromboses. Como os inibidores de protease alteram o metabolismo de açúcares e gorduras, há ainda o risco aumentado de infarto, e a associação com o tabagismo representa mais um fator de risco no longo prazo. Mais do que nunca é necessária a adoção de hábitos que diminuam esses riscos, como a atividade física e uma dieta saudável.

Relata-se que uma maior ingestão de ácido ascórbico (vitamina C) contribui para diminuir a toxicidade do tabaco, devido à ação anti-oxidante dessa vitamina.

Os efeitos do tabaco sobre a saúde, assim como de qualquer outra droga (com exceção do álcool), são diretamente proporcionais à intensidade e ao tempo de consumo. Se há danos à saúde, é importante lembrar que mesmo uma diminuição na quantidade de cigarros fumados já é benéfica, sendo também uma iniciativa de RD.

Uma vez que a síndrome de abstinência da nicotina pode ser intensa e de difícil tolerância (mesmo para quem está tentando apenas diminuir a quantidade de cigarros fumada), o uso de formas alternativas de assimilação de nicotina para atenuação dos sintomas, como adesivos e gomas de mascar, em terapias de substituição, pode ser considerado uma estratégia de RD. Embora mascar tabaco não seja um hábito isento de riscos à saúde – há associação com doenças das gengivas e cânceres da boca - constitui alternativa menos danosa para fumantes “pesados”.

Ainda que não existissem danos à saúde para os “fumantes passivos” (os efeitos da fumaça ambiental para quem não fuma são de difícil comprovação em estudos epidemiológicos exclusivamente baseados em observações), apenas o desconforto que algumas pessoas relatam com a fumaça em seu ambiente justifica, a nosso ver, as leis em defesa de ambientes livres do cigarro: trata-se de uma questão de civilidade e respeito mútuo não perturbar o ambiente partilhado, seja com barulho, bagunça ou fumaça, independentemente da existência ou não de danos à saúde. Por outro lado, não são raras as reações de perseguição e “patrulhamento” - verdadeira “caça às bruxas” -, dirigidas a tabagistas, o que nos soa igualmente desrespeitoso. A aversão à indústria do tabaco, acusada de omissão de informações, manipulação genética de cepas de tabaco para obtenção de maiores teores de nicotina (com um maior potencial de desenvolvimento de dependência química), além de outros comportamentos eticamente questionáveis, não pode ser transferida para os fumantes como se estes fossem seus cúmplices. Convivência mutuamente respeitosa também é redução de danos.

           

Interação entre consumo de drogas e infecção pelo HIV




Além dos pontos discutidos quando da descrição dos usos e efeitos de cada droga, há outros aspectos de interesse para as pessoas que vivem com HIV e com AIDS, comentados a seguir.

Uma questão freqüentemente formulada pelos portadores, principalmente por aqueles que estão em tratamento ou que o iniciam, é: “Posso beber?, ou “Posso usar drogas?”. Nossa postura é lembrar que o objetivo do tratamento é permitir vida normal. Em princípio, o tratamento anti-HIV não constitui contra-indicação absoluta para o uso de psicoativos, não se justificando a interrupção do uso dos anti-retrovirais quando do consumo de quantidades pequenas. Para definir o que se considera quantidade pequena, é razoável discutir caso a caso. Regra geral, uma dose de cachaça, um copo de vinho ou uma cerveja ao almoço é saudável - exceto se houver alguma contra-indicação específica, como no caso dos portadores de neuropatia, hepatites ou pancreatite, ou ainda aqueles com convulsões de difícil controle e que podem ser agravadas pelo álcool, cocaína, crack e anfetaminas. A questão, portanto, é: o que se entende por “beber” ou “usar” drogas? Algumas pessoas não conseguem manter o controle e acabam bebendo muito quando começam, portanto, talvez para elas seja melhor não beber nada. No que tange à necessidade de auto-controle, o mesmo raciocínio se aplica a quaisquer drogas.

Para identificação dos riscos, é mais apropriado avaliar os padrões de uso e discutir usos leves ou pesados, do que focalizar o raciocínio em drogas leves ou pesadas, já que a existência de danos (ou de benefícios) é conseqüência dos padrões e formas de consumo das substâncias: quantidade, contexto do uso, estado de saúde prévio e mesmo aceitação familiar, social e legal (CAMPOS, 2000).

O uso de qualquer psicoativo deve ser compatível com o estado de saúde do usuário, avaliando-se os efeitos das diferentes substâncias no organismo (incluindo eventuais interações entre os psicoativos e os medicamentos em uso) e os efeitos do padrão de consumo na saúde como um todo – adesão ao tratamento, padrão de sono, alimentação, atividades físicas, bem-estar geral.

O uso pesado de drogas (não exatamente qualquer uso) dificulta a aderência ao tratamento, facilita reinfecções e exposição a infecções adicionais, além dos possíveis efeitos adversos do abuso de drogas sobre a saúde per si. Contudo, os efeitos deletérios sobre a saúde de alguns usuários estão provavelmente mais relacionados à desorganização ou ausência de rotinas de auto-cuidado (higiene, alimentação, hidratação, sono, busca e adesão ao tratamento para as infecções) do que propriamente a efeitos tóxicos das substâncias.

Possíveis efeitos das drogas como causadoras, por si mesmas, de imunodeficiência, têm sido aventados (LEVINE e SOBEL, 1995). Cabe observar, contudo, que as más condições de higiene, a desnutrição e as dificuldades de acesso a cuidados de saúde não-segregantes são mais importantes que esses efeitos na determinação de quadros clínicos desfavoráveis e mesmo imunodeficiências.

Pela maior prevalência de tuberculose entre UDs, mesmo entre indivíduos não portadores do HIV, é possível que haja benefício em um uso mais liberal da vacinação (BCG), com reforços a cada 10 anos, e de medicamentos profiláticos (como a isoniazida) para casos específicos (contatos com doentes de tuberculose e PPD reator), sob supervisão médica. Outras vacinas - como para a hepatite B e o tétano – também devem ser mais lembradas e utilizadas de forma ampliada.

GERBER (1999) afirma que o tabaco (para os fumantes “pesados”) e o etanol são estimulantes de enzimas hepáticas, o que poderia acelerar o metabolismo de algumas medicações e, portanto, diminuir seu efeito terapêutico.

            Quanto à associação de anti-retrovirais com os psicoativos, além dos pontos já discutidos quando da descrição de cada droga, acrescentamos ter observado em pequena amostra de pacientes do Hospital Eduardo de Menezes (Belo Horizonte, MG) que o efeito semelhante à embriaguez provocado pelo Efavirenz (Stocrin®) parece ter funcionado como “reforço positivo”, desencadeando “fissura” – intenso desejo de usar psicoativos – em alguns usuários “pesados” de álcool, cocaína e crack. Esse efeito, contudo, não tem sido relatado por usuários de maconha. A discussão e o alerta sobre esse ponto com usuários de drogas ajudam a gerenciar complicações como o abandono de tratamento, relatado por um UD, sob alegação de que o Efavirenz “me fazia usar crack”.

Já os portadores do HIV em uso de inibidores de protease (principalmente Ritonavir) devem ficar atentos ao uso combinado com medicamentos nem sempre relatados nas consultas, como o Viagra®, que pode ter seu efeito potencializado: recomenda-se usar apenas ½ comprimido de 100mg, e só aumentar a dose do Viagra® se após 60 minutos os efeitos não forem semelhantes aos obtidos com dose plena. Da mesma forma, a associação de inibidores de protease com medicamentos à base de plantas como o hipérico, utilizado como calmante “natural”, apresenta risco de intoxicação e diminuição do efeito dos inibidores de protease, com prejuízo para o tratamento.

Existem relatos de uma maior freqüência de recusa de tratamento entre UDIs, quando comparados a outros UDs (ICKOVICS e MEISLER, 1997) e àqueles que não fazem uso habitual de quaisquer drogas, mas o uso de drogas em geral, quando se levam em consideração outros fatores como o status social e perfis psicológicos, não constituiu fator preditor de pior adesão ao tratamento antiviral no estudo feito por Nemes e colaboradores (2000).

Em outro estudo que avaliou fatores de adesão ao tratamento da tuberculose entre pessoas vivendo com HIV e com AIDS, usuárias de drogas (ORTEGA et alii, 1997) apenas o fato de ser usuário de drogas não constituiu fator determinante de pior adesão, frente aos não usuários. Essa impressão é compartilhada por JORDAN e outros (2000), que referem “(...) a não aderência ao tratamento (...), mais do que ao uso de droga em si, pode estar relacionada ao ‘estilo caótico de vida’ de alguns UDIs.”, e alertam para a inadequação de se presumir que todo usuário de drogas tenha um estilo de vida caótico, o que não é necessariamente verdade, mesmo para usuários de drogas injetáveis. Esta ressalva é fundamental para evitar que UD tenham seu acesso ao tratamento restringido por preconceitos dos cuidadores, que poderiam deixar de prescrever os medicamentos necessários por suporem que eles estariam a priori “condenados” a ter má adesão ou a serem “incapazes de aderir aos tratamentos”. A propósito, a Constituição brasileira afirma que “todos são iguais perante a lei”, e não “todos são iguais, exceto os usuários de drogas”. Discriminação é crime (SIQUEIRA, 1999).

Independentemente da decisão das pessoas que são portadoras de HIV e usuárias de drogas quanto a continuar ou não usando drogas, elas têm direito ao tratamento e às orientações no sentido de diminuir os riscos à sua saúde, constituindo obrigações éticas dos trabalhadores da saúde a capacidade de lidar com situações desta natureza e a atenção para com essa população sem condicionar o tratamento da infecção ao abandono do uso de drogas. Discordamos dos programas norte-americanos, que condicionam o acesso ao tratamento das conseqüências clínicas da infecção pelo HIV à participação dos usuários de heroína nos programas de substituição com a metadona.

Mesmo em serviços de referência, é freqüente a ocorrência de atos de negligência por parte dos cuidadores - como uma menor oferta de remédios para dor - para portadores do HIV usuários de drogas, sob a alegação de estarem as substâncias analgésicas sendo utilizadas por “puro vício”, mesmo quando há causas bem definidas para as dores e que se saiba analgésicos comuns não serem psicoativos. Essa negligência, que não deixa de ser uma forma implícita de punição aos UDs, pode vir escamoteada sob acusações de que os UDs são “manipuladores”, “queixosos”, “sociopatas” ou “problemáticos”, espelhando, na verdade, o desconhecimento e a incapacidade por parte dos técnicos da saúde em lidar com UDs, e em focalizar a sua ação na abordagem dos problemas de saúde, ao invés de se deterem em julgamentos morais.

As relações deterioradas ou mesmo não existentes entre cuidadores e UDs são causa de relutância e atraso por parte dos usuários de drogas em buscar cuidados - por temor de serem segregados ou de terem de lidar com a intolerância que não raro encontram -, e de má adesão ou abandono precoce dos tratamentos. Não se pode esquecer que o tratamento eficaz (com duração e doses corretas) dos quadros infecciosos diminui a carga de patógenos viáveis nos portadores (a “carga de infecção” ou infectividade) e, portanto, contribui para diminuir a transmissibilidade, tanto via sexual como sangüínea, do HIV e dos vírus da herpes ou das hepatites, do mesmo modo que o tratamento da tuberculose diminui o número de casos secundários entre os contatos das pessoas infectadas pelo bacilo de Koch. O tratamento dos doentes, a prevenção de infecções e doenças entre usuários de drogas por meio de profilaxias (contra hepatites, tuberculose, tétano) ou de medidas que tornem as relações sexuais e o uso de drogas mais seguros, além do benefício óbvio para a saúde dos tratados, constituem iniciativas de redução de danos para os usuários de drogas de um modo geral, para as pessoas próximas a eles e para a coletividade.

Parte deste aprendizado de convivência com os usuários de drogas (ou quaisquer outras populações com determinados hábitos e práticas que possam ser objeto de estigma) consiste em estarmos atentos às expressões que utilizamos para nos referirmos aos usuários de psicoativos: “vício” é palavra usada para apontar comportamentos e hábitos sobre os quais temos críticas do ponto de vista moral. Ao rotular alguém de “viciado”, podemos ser interpretados como se estivéssemos dizendo: “Eu o condeno”. Essa interpretação pode ter  caráter depreciativo e inferiorizante para esse “viciado” em relação a quem o rotula, e é claro que isso influencia a relação que se estabelece com ele, impedindo a troca de informações importantes: ninguém conhece melhor os processos de preparo e consumo de drogas que os próprios usuários, conhecimento este fundamental para a identificação de pontos passíveis de serem trabalhados no sentido de um uso mais seguro de drogas, com ajuda do olhar dos técnicos da saúde, rompendo o processo de marginalização, por si só fonte de danos.



Efeitos sobre a contagem de células CD4+  e sobre a carga viral

As pessoas infectadas pelo HIV possuem muitas células com infecção latente: células em cujo código genético existe a informação de como produzir HIV, mas que só o farão quando estimuladas. Esse estímulo pode ser, por exemplo, uma infecção ou uma proteína estranha inoculada no corpo. Quando alguém utiliza uma seringa suja de sangue, além do risco de infecções (inclusive pelo próprio HIV, aumentando e, possivelmente, diversificando os vírus presentes no organismo), está recebendo proteínas do sangue de outra pessoa que funcionam como estímulos para que as células latentes iniciem a produção de HIV, portanto aumentando sua carga viral, o que por sua vez pode levar à queda no número de células CD4+.

Nos primeiros seis meses da infecção, o organismo das pessoas infectadas pelo HIV busca estabelecer um equilíbrio com o vírus, que tende a atingir um “estado de ajuste” (set-point), onde a carga viral se mantém razoavelmente estável. Isso acontece em parte porque as defesas do corpo contra o vírus conseguem organizar com alguma eficácia uma resistência. Quando um portador se reinfecta com mais partículas virais (existem muitos subtipos do HIV ou “cepas”), ele adquire vírus diferentes do “seu” e isso causa perturbação naquele equilíbrio (além do risco de aquisição de cepas de HIV resistentes aos tratamentos). Os portadores do HIV são, portanto, ainda mais vulneráveis a reinfecções (e outras infecções), não fazendo sentido imaginar que “não preciso me prevenir porque já sou infectado”. Tal vulnerabilidade ampliada independe da forma de exposição a mais vírus, seja por sexo ou sangue nas seringas. Sexo mais seguro e uso mais seguro de drogas constituem ambos, em quaisquer circunstâncias, estratégias de RD.

 


Um ponto delicado: quimioprofilaxia pós-exposição a HIV por compartilhamento de seringas


            Desde 1995, sabe-se que o uso de anti-retrovirais imediatamente após exposições acidentais ao HIV, como entre trabalhadores da saúde que se espetam com agulhas sujas, reduz em até 80% a chance de o acidentado se infectar. Este esquema profilático deve ser, idealmente, iniciado até duas horas depois do acidente e durar de quatro a seis semanas.

É possível que algumas pessoas que tenham, em circunstância incomum (não sejam compartilhadores “habituais” de seringas), compartilhado seringas sujas de sangue, se beneficiem da profilaxia com antivirais. Para as pessoas que compartilham seringas, não existe indicação de uso de antivirais a cada vez que ocorrer compartilhamento pois o indivíduo se manteria em uso, por períodos extremamente longos, de anti-retrovirais profiláticos, o que propiciaria a emergência de vírus resistentes, e dificultaria muito ou mesmo impossibilitaria o tratamento, caso necessário.

Há ainda o temor (não investigado) de que a disponibilização de medicamentos profiláticos para usuários “pesados” de drogas injetáveis possa provocar “relaxamento” nas medidas de redução de danos mais eficazes, que são o uso de material limpo e individual para o consumo de drogas e a adoção de medidas de sexo mais seguro.

Entretanto, merece ser citado estudo de Schechter e colaboradores (2000) que avaliou o efeito da disponibilização de medicamentos profiláticos - em dose suficiente para início do tratamento, até buscar ajuda em serviço de saúde - para uso após exposição a sexo sem proteção e concluiu que a posse dos medicamentos, ao invés de diminuir, favoreceu a adoção de medidas de sexo mais seguro (inclusive preservativos). A explicação oferecida por aqueles autores é que os medicamentos no bolso funcionariam como um “lembrete” da materialidade dos riscos e da necessidade de proteção.

Este ponto, como se vê, é hoje polêmico. O Ministério da Saúde não autoriza a prescrição de anti-retrovirais profiláticos para outras formas de exposição além de acidentes ocupacionais ou gestantes portadoras do HIV. Nossa postura no que diz respeito a usuários de drogas, contudo, é de avaliação caso a caso e indicação de profilaxia, inclusive também contra hepatite B, em circunstâncias excepcionais. O mesmo raciocínio se aplica a exposições devidas ao sexo sem proteção, como estupros ou acidentes como ruptura de preservativos entre parceiros discordantes (quando um deles é sabidamente portador e o outro não), adeptos do sexo seguro.

 


Conclusões e considerações finais




Para os que sofrem danos decorrentes do consumo de psicoativos, mas têm dificuldades ou não desejam parar de usá-los, há alternativas para tornar esse uso mais seguro, reunidas sob a denominação de “estratégias de redução de danos”.

Usuários de drogas que vivem com HIV e AIDS e seus cuidadores podem construir formas de cuidado mutuamente satisfatórias e respeitosas, com ganhos para os indivíduos e para a coletividade. Pequenas vitórias, como deixar a aplicação de drogas para depois, diminuir a quantidade utilizada, se cuidar, e o respeito com os direitos alheios representam passos importantes na construção de uma vida com qualidade e de uma boa convivência.

O desenvolvimento de estratégias de RD mais eficazes e factíveis depende da interlocução franca e respeitosa com os usuários de drogas, o que só é possível com o abandono de posturas condenatórias. Essas estratégias são fundamentais para o controle da epidemia de HIV no Brasil (além dos seus efeitos sobre a prevenção de outras doenças transmíssiveis por sangue ou sexo). Ainda que não se admitam as estratégias de RD como legítimo direito dos usuários de drogas e contribuição essencial para a superação de um paradigma tão insatisfatório como a associação imediatista do uso de drogas com o crime ou com diferentes “problemas de saúde”, urge compreender seu papel fundamental no controle de doenças que atingem a todos e na diminuição de danos sociais.

A inexistência (para as drogas ilegais) ou a precariedade (para as drogas legais) do controle de qualidade destas substâncias constitui fonte de danos graves (infecções e overdose) para usuários marginalizados e socialmente execrados.

Infecções e violência são a principal causa de morte dos usuários de drogas ilícitas (KLATT, MALLS e NOGUCHI, 1990). Além dos riscos para a saúde, os danos sociais também devem ser abordados e enfrentados. Como grande parte destes danos advêm da reação social contra os usuários de drogas ilícitas, incluindo-os na marginalidade, torna-se necessário reconhecer que os trabalhadores da saúde (como de resto toda a sociedade) têm muito a aprender com os usuários no sentido de diminuir os preconceitos e as injustiças perpetradas contra eles.

            O objetivo maior das ações de RD deve ser a inclusão social e o rompimento da marginalização dos usuários de drogas. Terminamos com fragmento de um poema de Drummond, como metáfora para a proposta de RD:



A flor e a náusea



(...) Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes,
ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas petálas não se abrem.
Seu nome não está nos livros...
É feia. Mas é uma flor.
Furou o asfalto,
o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade


(“A rosa do povo”)





Sugestões de leitura:



BASTOS F.I., MESQUITA F. (Orgs.). Trocas de Seringas: Drogas e AIDS. Ciência, Debate e Saúde Pública. Coordenação Nacional de DST/AIDS. Brasília: Ministério da Saúde, 1998.

BASTOS F.I. Ruína e reconstrução: AIDS e drogas injetáveis na cena contemporânea. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: ABIA: IMS/UERJ, 1996.

DA SILVA, M.S. Se liga! O livro das drogas. Rio de Janeiro: Editora Record, 1997.

Boletins da Associação Brasileira de Redutores de Danos – ABORDA. Solicitar à ABORDA em Ribeirão Preto (SP): 0XX16-6055032, ou via internet: aborda@org.br

EDWARDS G., MARSHALL E.J., COOK C.C.H. O tratamento do alcoolismo – um guia para profissionais da saúde. 3ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.

MARLLAT G.A. et alii. Redução de Danos – Estratégias práticas para lidar com comportamentos de alto risco. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.

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Bibliografia:



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[1] Artigo publicado como capítulo de livro: CAMPOS, M.A.; SIQUEIRA, D.J.R.; BASTOS, F.I. Drogas e Redução de Danos – Abordagens para pessoas vivendo com HIV e AIDS. In PINHEIRO, R.M.; SILVEIRA, C.; GUERRA, E. (org). Drogas e AIDS – Prevenção e Tratamento, páginas 71-104. Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2001.
[2] Há estudos sobre outras substâncias não psicoativas cujo uso não medicinal é freqüente, como hormônios anabolisantes, não comentadas aqui. Cabe lembrar ainda que as estratégias de Redução de Danos se aplicam também ao uso de silicone líquido para modelar o corpo por travestis. A propósito, veja-se o trabalho de Luiz Mott (1999): Silicone: A redução de danos para travestis. Salvador, Editora Grupo Gay da Bahia.
[3]Para conceitos adicionais sobre RD, além das leituras sugeridas ao final deste capítulo, veja-se Brasil, C.S. (1999). Redução de Danos – conceitos, história, objetivos, estratégias. In Clínica AMMOR, ABORDA e Programa para Infância Desfavorecida no Meio Urbano (PIDMU-União Européia). Relatório Técnico do I Treinamento Nacional de Redutores de Danos. Belo Horizonte: Clínica AMMOR, mimeo.
[4]A propósito, cabe lembrar que nenhuma droga é “legalizada” no Brasil: no máximo são regulamentadas, como o álcool e o tabaco. Essa opção (regulamentação) nos parece o caminho natural para todas as substâncias psicoativas: não cabe “proibição” nem “liberação”. Há situações em que o consumo de psicoativos, mesmo os de venda regulamentada, necessita ser controlado: quando o seu uso coloca em risco direitos de terceiros (ex: dirigir sob efeito de psicoativos, seja álcool, anfetaminas ou maconha). Uma das referências para a tolerância ou não ao uso de qualquer droga é em que medida esse uso fere os direitos alheios.
[5] A ketamina, um anestésico que vem surgindo como “novo” psicoativo, constitui um bom exemplo de como uma droga pode causar efeitos agradáveis ou desagradáveis conforme o estado emocional de quem a utiliza: a literatura médica, habituada ao uso da ketamina apenas em situações de sofrimento e stress físico e emocional, relata como efeito colateral da ketamina “pesadelos e pânico”, enquanto usuários de ketamina numa festa descrevem delírios e alucinações agradáveis.
[6] Para mais informações sobre a planta e seus usos, veja-se ROBINSON, R. O grande livro da Cannabis – Guia completo de seu uso industrial, medicinal e ambiental. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

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