Escrito em 1999 e publicado em 2000, compartilho esse artigo que registra fase inicial da elaboração sobre educação sobre drogas. Aos interessados no tema, sugiro ler também pelo menos o "Freire e Freud...", disponivel neste blog.
Marcelo Araújo Campos[2]
“Não é o que entra pela boca que
torna o homem impuro, mas o que sai...”
Evangelho de São Mateus, capítulo 15, versículo 11
Introdução
Entre as demandas trazidas por educadores
que atendem jovens em geral está a lida com usuários de drogas e o desejo de
intervenções “preventivas”. Grande parte das instituições atendem jovens em
situação de pobreza e, embora uso ou abuso de drogas não ocorram apenas entre
estes jovens, o acesso limitado a serviços de educação, saúde e assistência
social e a falta de perspectivas outras os tornam população mais vulnerável a
agravos à saúde cuja prevenção demanda comportamentos e atitudes construídos a
partir de formação humana: capacidade de auto-cuidado, valorização da saúde,
habilidades sociais para convivência e superação de pressões. As Doenças
Sexualmente Transmissíveis (DST), a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida
(aids) as gestações não planejadas e os danos decorrentes de abuso de drogas
são exemplos que ilustram a situação descrita.
Desta forma, a prevenção dos agravos
citados ganha complexidade, devendo ser norteada para o fortalecimento da
resiliência[3] e construção de cidadãos aptos a se
protegerem, a lutarem por e exercerem seus direitos. Para isso, há que agir
buscando reforçar nestes jovens alguns componentes de seu “patrimônio”,
entendido como o conjunto de recursos disponíveis para garantir aos indivíduos,
aos seus familiares e à coletividade maior segurança e melhor padrão de vida.
Este “patrimônio” compõe-se de trabalho, saúde, moradia, relações familiares e
comunitárias e, sobretudo, de habilidades, conhecimentos, valores e atitudes
que subsidiam e norteiam decisões no enfrentamento de desafios e problemas. Ele
define o potencial de reagir às crises, e os fatores que o corroem aumentam o
grau de vulnerabilidade a que comunidades e indivíduos estão submetidos
(modificado de MOSER, 1996).
Este artigo comenta o trabalho
educativo com forma crítica e contextualizada de se abordar o fenômeno
“drogas”.
O que buscamos com nossas abordagens?
Propomos como meta a ser tida como “sucesso de um programa de drogas” não
necessariamente erradicação do uso de
drogas, mas bem-estar dos indivíduos
sem dano para a coletividade, portanto incluindo as diversas propostas de
enfrentamento – abstinência, tratamento, redução de danos
e mesmo convivência
– buscando aproveitar o que cada
uma delas nos oferece na busca daquele “sucesso” em cada situação
específica – inclusive repressão
corretamente direcionada - conforme adiante comentado.
De imediato, tal proposta nos desafia a
postura menos emotiva e mais equilibrada frente aos usuários de drogas. Cremos
ser útil refletirmos sobre nossa percepção do fenômeno: a aversão às drogas e
aos usuários é queixa ou problema?
Lembramos a distinção entre “queixa” e “problema”: queixa é uma manifestação de
frustração ou desagrado com determinada situação, e seu objetivo é exteriorizar
este desagrado, sendo fruto de choque entre o que nos é apresentado e o que
“gostamos”. As queixas visam satisfação pessoal, são explicitadas pelo queixoso
e só existem na medida em que o próprio queixoso existe. Os problemas são
exteriores às pessoas que os diagnosticam, fazem parte do mundo real, e existem
a despeito da existência de quem os detecta e verbaliza.
Compreende-se que o objetivo do
queixoso será “ter razão”, enquanto
quem problematiza estará voltado para busca de soluções (às vezes, à custa de sua satisfação pessoal). Então, a
pergunta: lidamos com drogas como queixa ou problema? Ou: o que há de queixa e
de problema na forma de lidar com este desafio? E mais: se há problema, o é
para quem? Estas perguntas devem considerar uma possível legitimidade das
queixas. Neste caso, o que não deve ser tolerado são eventuais injustiças
levadas a cabo para satisfazer o queixoso.
No caso das drogas, a busca da
satisfação das queixas tem mostrado facetas particularmente perversas, ao ponto
de algumas reações terem-se mostrado mais danosas que o próprio uso ou abuso
das substâncias, como é o exemplo da punição de usuários de maconha, que causa
danos restritos à saúde (comparáveis aos do tabaco), mas cujos usuários em
nosso meio são execrados, marginalizados e não raro criminalizados.
Também é fundamental abordar outros
pontos mais sutis. É freqüente ouvir sobre a necessidade de “proteger as
crianças do flagelo das drogas”. Há que se dissecar os conteúdos ideológicos[4] desta premissa. A começar pela idéia
implícita de que “nós, bonzinhos, acudiremos estes pobres indefesos”, quando
estamos lidando com pessoas as quais desejamos sejam capazes de desenvolver seu
senso ético e moral. É claro que se reconhece que tal construção é gradativa,
sendo necessário se adequar os formatos e conteúdos de cada abordagem a cada
público-alvo e faixa etária, cabendo hierarquização dos conteúdos de modo a
evitar que os contatos com os temas não aconteçam em descompasso com o “momento
educativo”. Como coloca SISSA (1999): “crescer
significa aprender a adiar o gozo, deslocando-o para objetos compatíveis com o mundo,
com os outros, com a autoconservação”.
Contudo há que se cuidar para não
transformar esta “proteção” em “violentamento” cultural, ao invés da construção
de senso crítico. Cremos que o papel de quaisquer educadores é desenvolver
capacidade de construir e avaliar opções frente aos desafios apresentados pela
vida, não “convencer” os “educandos”.
Também é necessário pontuar diferenças entre “aceitar” e “aprovar”: a
disposição em aceitar alguém que tem comportamento que não aprovamos já é um
grande passo. Mais uma vez, apenas isso não é suficiente. Aquele “aceitar” não
pode ser fundado na idéia de condescendência (aceito por que sou “caridoso”,
portanto - subentende-se - estou em patamar “acima” e meus valores são melhores
que os de quem aceito, esse “coitado”). O aceitar
é um reconhecimento da existência do diferente, do direito a estas diferenças e
da importância das contribuições que o outro traz. Aceito por que reconheço
neste outro sua singularidade e a singularidade do contexto de sua existência.
Se o “educador” sou eu, a
responsabilidade por compreender e tentar a aproximação é minha, não deste
outro/diferente. Esta postura, de humildade e que reconhece os limites do nosso
“saber”, é também mais afinada com o conceito popperiano[5] de ciência (“o que tolera ser
falseado”), em substituição a ciência como doutrina e em contraposição a
postura dogmática, campo da religião/catequese.
Percebem-se já aqui os
delineamentos de princípios éticos na relação educador/educando. Queremos
enfatizar a necessidade de nos instrumentalizarmos (e também os jovens) com
senso crítico e informações que nos auxiliem a tomar decisões, não absorver nem
reproduzir regras de comportamentos tidas como “soluções”, soluções estas que
podem estar direcionadas para satisfação
da queixa social contra a estranheza
causada pela existência de pessoas que optam pela interação com algumas
substâncias, diferentes das habitualmente toleradas, como forma de lidarem com
suas angústias (que todos temos) e busca de prazer.
O conceito de drogas que oferecemos
para debate é: tudo com o qual se
estabelece compulsão ou relação doentia, o “doentia” definido na medida do
espaço ocupado em detrimento de capacidade de se relacionar e interagir com o
mundo, a despeito da existência ou não de danos à saúde”. Simplificando,
seria aquilo com o qual se pode criar relação “viciosa”.
Estamos evitando usar a expressão
“vício”, a nosso ver confusa. Uma tentativa de definição seria: compulsão exagerada e desorganizadora da
economia psíquica, definida não tanto pela freqüência da ocorrência do hábito
compulsivo (no caso, o uso das substâncias), mas pelo grau de desorganização que tanto sua ausência como o esforço
para satisfazê-lo acarretam. Este conceito de “vício” (repetimos nosso
desagrado com a palavra) deve ser contextualizado na esfera das normatizações e
normalizações. Há que se cuidar para não rotular de maneira simplista o que nos
é estranho como “vício”.
Torna-se necessário também acrescentar
alguns conceitos que subsidiem as discussões. Vejamos três definições de “dependência”: a)”relação totalitária com a
droga, que prejudica todas as outras relações que se pode estabelecer”; b)”estado
de ajuste metabólico do organismo, que passa a necessitar de uma substância que
vem de fora para funcionar normalmente, enquanto os organismos habitualmente
funcionam sem ela” [6] ;
c)
”estado no qual só se funciona ou se
sente bem em função da presença de algo. Chama-se de dependente ao indivíduo
que estabelece tal relação de necessidade absoluta, relação essa inexistente
para os ‘normais’”.
O primeiro conceito é definido em função do espaço
ocupado pelo objeto “droga”; o segundo pela propriedade química de algumas
substâncias de modificarem o funcionamento habitual do organismo (e nem todas
as drogas têm essa propriedade), enquanto o terceiro inclui não só a
dependência “física”, mas fundamentalmente a canalização de comportamento
compulsivo do usuário (uma “vítima ativa” no processo de criação da
dependência) para algo, que sequer necessita ser uma substância (conforme a
definição de droga acima proposta). A
interrupção súbita, após longo período de uso continuado de algumas drogas
capazes de causar dependência física - como álcool, nicotina, heroína - pode
levar à síndrome de abstinência”, definida
como “conjunto de sinais e sintomas
causados pela ausência dos efeitos de determinadas substâncias no organismo
dependente, que se adaptou a só funcionar normalmente com sua ajuda”.
Cremos que a distinção entre
dependência física e psicológica seja útil para abordagens terapêuticas, mas
pouco útil em tentativas de classificação de “periculosidade” de drogas, ou em
drogas “pesadas” e “leves”: preferimos falar em usos pesados ou não de qualquer droga, já que o uso leve e
ocasional de uma droga tida como “pesada” (como a heroína) pode ser menos
danoso que o uso pesado de uma droga “leve” como a maconha.
Essa distinção ajuda a compreender como o
tratamento medicamentoso dos “vícios” pode ser apenas transferência da
tendência compulsiva (inicialmente dirigida para a “droga”) para o medicamento
legal e prescrito, do qual o indivíduo compulsivo às vezes se “re-apropria”.
Sob este ponto de vista, a dependência “psicológica” é de tratamento mais
difícil que a dependência “física”, ou melhor, o componente psicológico da
dependência construída com a substância pode ser mais difícil de ser
desmanchado que a adaptação do organismo.
É fundamental, portanto, deixar
explícito que o que faz uma droga mais ou menos “perigosa” não é definido pelas
suas propriedades farmacológicas, mas pela relação que o usuário estabelece com
ela, e que a dependência física é consequência, não causa, de uso continuado.
Da mesma forma como as pessoas que bebem álcool (uma droga de alto poder
adictivo) nos fins de semana (“uma cervejinha com os amigos”) não são
consideradas “alcoólatras”, não há sentido em rotular de “viciados” os usuários
recreativos ocasionais de qualquer droga. O critério estaria sendo moral e não
farmacológico.
NOWLIS (1975) sugere
a seguinte classificação dos usuários de drogas: “experimentador”; “recreativo”
ou “ocasional”; “habitual” e “dependente/toxicômano”. Podemos ir além daquelas
definições e reconhecer a existência dos que fazem uso (com ou sem compulsão) e
dos que abusam (não necessariamente de forma compulsiva). Exemplificando, há
pessoas que têm o hábito de tomar uma dose de cachaça ao almoço e sequer ficam
embriagadas (uso sem dano à saúde), mas talvez não tolerassem ficar sem esta
dose (o que sugeriria “vício”). Também há pessoas que abusam de álcool
ocasionalmente (inclusive com algum grau de intoxicação e dano ao fígado), mas
não sentem compulsão de beber sempre (abuso sem “vício”). Acrescente-se que a
distinção entre uso e abuso nem sempre é simples. Duas doses
de cachaça para alguém que vai dirigir pode ser abuso, mas quatro doses em uma
festa sem compromissos que exijam reflexos ou atividade intelectual talvez seja
“uso”: temos de considerar o contexto.
Interessa ainda lembrar como a
predisposição individual (social, psíquica e, em alguns casos, biológica)
influencia a construção ou direcionamento de relação compulsiva para a
interação com as substâncias. O usuário faz a “droga”, não o contrário: a droga
(conforme a definimos acima) é algo de que “se apropria” a tendência
compulsiva. No caso das substâncias com propriedades farmacológicas de desencadearem
sensações prazerosas enquanto dura o efeito e desprazerosas quando ausentes, a
tendência compulsiva é assemelhada ao condicionamento pavloviano[7] em direção à repetição do
comportamento capaz de causar prazer ou evitar sofrimento. Nenhuma substância
tem a capacidade de instantaneamente criar dependência à revelia da estrutura
da personalidade de quem usa, e ninguém abandona o hábito se não estiver
motivado a tal.
Abordando os jovens
É fundamental reconhecer a existência e
o direito ao prazer e evitar a dicotomia entre prazer e risco. Se o educador apresenta situações desafiantes
contrapondo prazer ao risco, a tendência será opção pelo prazer e negação do
risco.
Informações corretas ajudam a
compreender riscos, portanto viabilizam sua hierarquização e melhor
gerenciamento, já que pode haver necessidade de opções intermediárias, mesmo
que não “ideais” (adiante discutido). A descrição das formas de uso de drogas é
feita com vistas a oportunizar aos adolescentes desde o não contato até o uso
seguro, hierarquizando-se riscos e incluindo não apenas potenciais danos à
saúde, mas também a execração social a que os usuários estarão expostos.
Aqui cabe lembrar um cuidado: assim
como existe uma “biologização do sexo” em algumas correntes “educativas”, que abordam
sexualidade apenas como descrição detalhada da anatomia, fisiologia e biologia
do ato sexual – portanto ignorando o papel central da fantasia, do erótico, do
gozo, da afetividade e das relações de gênero, reduzindo o sexo ao genital,
como se ocorresse entre órgãos e não entre pessoas; ocorre “farmacolização das
drogas”, exposições detalhadas de mecanismos de ação e toxicologia das drogas,
mas sem espaço para discutir o prazer, os significados do uso ou abuso para os
indivíduos, as representações afetivas e emotivas que permeiam o uso, a
construção social e pessoal do “objeto-droga”. A biologia da reprodução está
para o sexo como a farmacologia e a toxicologia estão para as drogas: podem ser
maneiras de mostrar o explícito ocultando o que realmente interessa, mas não
pode nem deve ser discutido por afrontar o moralmente instituído. É o que KOSIK
chamou de “pseudo-concreticidade”. No caso do sexo, a postura biologicista
reduz sexo a algo que acontece nos genitais. Quanto às drogas, a farmacologia
apontará, principalmente, o cérebro. As pessoas em sua totalidade não vêm ao
caso.
Também
temos de considerar que estamos lidando com o real, portanto considerar danos
provenientes das reações da sociedade contra as pessoas que se atrevem a
exercer opções diferentes do que é legal ou moralmente tolerado, como acontece
com usuários de drogas. A maioria absoluta dos usuários de álcool e drogas
ilegais – cocaína, maconha, LSD, inalantes - são usuários recreativos ou
circunstanciais e não sofrem necessariamente dano tóxico decorrente do uso, mas
seus usuários estão expostos a segregação e processo penal.
Portanto, a despeito da inocuidade de
embriaguez ocasional por álcool ou um cigarro de Cannabis, o primeiro é tido como demonstração de adequação às
normas de bem viver, mas o segundo poderá ser não só demonizado, mas
criminalizado. Habitualmente, em nosso meio, alguém alcoolizado passa ridículo,
enquando alguém “drogado” causa medo e hostilidade. Não espanta que alguns
usuários digam de maneira irônica “tenho problema com a polícia, não com a
droga”. Esta segregação ainda marginaliza e afasta os usuários, um contra-senso
se a proposta é “recuperá-los”. Observe-se os jovens em situação de rua que,
antes de completar 18 anos, abusam de cola, thinner
e outras drogas, cientes da relativa impunidade de que gozam. Ao completar 18
anos passam a ficar mais vulneráveis à perseguição da lei e então transferem
sua compulsão para o álcool, legal e tolerado. Perdem o status de “meninos de rua” e passam a ser “vagabundos bêbados”.
Lidando com os pontos atrativos
Consideramos pouco satisfatória
a definição negativista que identifica o consumo de drogas apenas como resposta
a “problemas”, conforme VARGAS (1998), que nos alerta a “evitar fazer do consumo de drogas um fenômeno que se reduza à condição
de resposta a crises ou carências”.
Josenir
DE OLIVEIRA (1991) aponta como motivações para uso de droga os seguintes
pontos: pressão do grupo e papel da droga como unificador no grupo;
prazer e fuga através de prazer solitário; jogo com a morte e transgressão. A discussão em detalhe destes
pontos extrapola os objetivos deste texto, mas gostaríamos de comentar dois
pontos: a pressão de grupo e a busca da transgressão.
Hanah
Arendt e BHABHA (1998) abordam a pressão do grupo como o desejo do “pertencimento”:
mais que desejo de ser amado, há medo de ser rejeitado. A necessidade de
aprovação (medo da rejeição) é mais aguda entre jovens com baixa auto-estima, o
que os torna mais carentes de aceitação pelo grupo e mais ansiosos por se
adequarem aos modelos tidos como ideais: quem picha o prédio mais alto, quem é
mais agressivo com a torcida rival, quem corre mais riscos. Exemplos de
comportamentos adotados em busca do “pertencimento” são as galeras de funk, as torcidas organizadas, as
gangues de pichadores, as bandas de rock, os neonazistas “skin-heads” e os grupos de usuários de drogas.
É curioso como
sentimento tão nobre (o desejo de ser aceito e amado) possa se traduzir em
violentas explosões contra as facções contrárias (ou simplesmente diferentes):
quanto maior a aversão ao outro mais explícita fica a identificação com os
pares, mais digno de aceitação se torna. Esta tendência pode ser abordada em
oficinas comparando-se as facções e mostrando quão semelhantes são entre si, e
dando aos jovens espaço onde sejam aceitos, de modo a diminuir sua
vulnerabilidade à ditadura dos seus pares. Neste contexto torna-se interessante
discutir a liberdade individual em tomar próprias decisões (adolescentes fazem
muita questão de serem “diferentes” em sua individualidade): ninguém precisa
ser igual ao outro. Temos o direito de escolhas outras que as definidas pelo
grupo. As pessoas devem ter liberdade para escolhas individuais (o que soa
muito sedutor para adolescentes contestadores de normas, inclusive quando impostas
por outros adolescentes).
O outro ponto que desejamos abordar
passa por nossa tendência a “glamourizar” as drogas. Se o uso acontece como
forma de contestação às normas do “sistema” e às autoridades, temos de ser
cuidadosos em não reforçar o “mito drogas” (“matam, são muito perigosas,
caminho sem volta, coisa de marginal”): quanto mais condenadas, mais atraentes
serão. A imposição de regras de forma autoritária, definindo o que é “proibido”
de forma contraditória subestima a inteligência dos submetidos à regra, que se
sentem agredidos. Quanto maior a aversão às “autoridades” (principalmente
quando se comportam de maneira hipócrita), maior o prazer em violar as regras,
mesmo às custas de riscos pessoais: “eu o desprezo (a autoridade) tanto que
saboto suas regras mesmo se me fizerem mal à saúde”.
O discurso
proibicionista/terrorista ainda tem o inconveniente de reforçar nos usuários o
estigma de serem indignos de ajuda e, pior, “irrecuperáveis” (então para quê
procurar ajuda?). Ao apresentá-las como realmente são (substâncias capazes de
induzir alterações na mente, às vezes condenadas e às vezes aceitas), poderemos
estar desmanchando o charme da contravenção. É claro que isso também
desculpabiliza o usuário, mas não cremos que haja razão para culpa de fato: há
necessidade de cuidado com danos, sejam eles físicos ou sociais, a si próprio
ou a terceiros. Cremos ser mais
importante discutir os usos que
fazemos das substâncias, (e, por analogia, a maneira como lidamos com sexo,
dinheiro, esporte, moda e consumo) que discutir efeitos farmacológicos e tentar
coibir o contato com objetos presentes no cotidiano e apresentados de maneira
“demonizada”.
As opções com usuários
Considerando-se o até agora exposto,
não é difícil perceber a inexistência de “solução”: há formas de enfrentamento
com graus variados de eficácia sobre as diversas faces da questão, e todas as
abordagens devem ser em princípio respeitadas, sejam de fundo
técnico/científico ou religioso. O que legitima a ciência e a religião é
postura altruísta (EINSTEIN, 1984).
O trabalho em rede impõe necessidade de
respeito às diferentes correntes ideológicas institucionais, desde que não
exista sobreposição de direitos humanos por dogmas religiosos, políticos,
ideológicos ou quaisquer outros. As diversas formas de abordar os usuários têm
contribuições que não podem ser desprezadas (CAMPOS et al., 1997 e 1998).
Tratamento
Tratamento não significa
necessariamente abstinência, mas há pessoas cuja capacidade de controle sobre a
compulsão é por demais reduzida para se arriscarem no uso das drogas. Temos,
por exemplo, os Alcoólatras Anônimos: como podemos dizer a alguém que, a custo
de imenso esforço e sofrimento, conseguiu se organizar sob regras rígidas
(“evite o primeiro gole”), que uma dose de cachaça ao almoço pode ser saudável?
Como poder-se-ia retirar desta pessoa o substrato, seu ponto de apoio tão
trabalhosamente construído? Não creio que tenhamos o direito de cometer tal
violência. A não ser, talvez, em contexto de terapia psicanalítica.
Há pessoas que necessitam de limites
rigorosos, como a abstinência, inclusive com auxílio de dogmas religiosos, para
nortear suas decisões e comportamentos. Não podemos deixar de lamentar,
contudo, a limitação que estas posturas radicais representam. Parece triste que
a compulsão pela droga seja substituída pela compulsão por dogmas religiosos
(“Vicie-se em Jesus”) ou quaisquer outras formas de condicionamento
comportamental, por serem redutoras do ser humano (da sua “normatividade”,
conforme BASTOS, 1999). Reconhecemos a utilidade destes condicionamentos
(frente a limites pessoais) e trocas de compulsão como “mal-menor”, por serem
redução da capacidade das pessoas de enfrentarem e conviverem com os desafios e
conflitos da existência. Simplificar é realmente mais fácil. Oxalá a
abstinência fosse fruto do não desejo pela droga, ao invés de condicionamento
compulsivo para reprimir este desejo que permanece e, havendo “recaída”, ainda
causará sensação de fracasso. Reprimir a compulsão com abstinência é, portanto,
uma forma de controle, mas não pode constituir a norma: antes é exceção
aplicável àqueles incapazes de exercerem sua normatividade sem sofrer ou causar
danos.
Repressão
Repressão deve ser da esfera das políticas
públicas, a serem discutidas pelos educadores. Consideramos que deve ser
dirigida a coibir danos, não o uso. Exclua-se a repressão do uso fora de
contexto: não se pode tolerar que se dirija sob efeito de drogas que alterem as
habilidades mentais necessárias à atividade (a nicotina não causa tais
perturbações na dose obtida com cigarros), seja álcool (motoristas de fim de
semana), anfetaminas (choferes de caminhão) ou maconha (jovens voltando de um show). Da mesma forma, não se pode
tolerar drogas no ambiente de estudo ou trabalho, que demandam capacidade de
julgamento e esforço intelectual. Não ignoramos como a cocaína acelera o
raciocínio, sendo inclusive usada como droga “instrumental” para aumentar o
rendimento no trabalho de executivos, que o álcool é largamente consumido para
minorar o sofrimento em condições de trabalho adversas (coveiros, cabistas que
trabalham em galerias subterrâneas, catadores de papel, bóias-frias, etc). Mas
não é esse o ponto. Estamos falando de aparato repressor ideologicamente
produzido para defesa de um status quo
que condena o estranho e incentiva o que conhece, sem pesar realmente o que
causa mais ou menos danos em termos de coletividade.
A postura repressiva a todo custo tem
acarretado não só injustiças, mas enorme dispêndio de recursos com prisão de
pessoas por motivos moralmente banais, enquanto favorece o florescimento do
mercado (segundo a Interpol, o segundo no mundo em volume de recursos
envolvidos, só perdendo para o de armas) explorado por aqueles que, por falta
de opções ou oportunismo, a ele se dedicam e defendem com violência. O discurso
de regulamentação provavelmente desagradará tanto aos proibicionistas quanto
aos traficantes.
Redução de danos
Redução de danos é estratégia de
saúde pública cujo ponto mais conhecido é a troca de seringas sujas por limpas
com usuários de drogas injetáveis, mas isso é reduzir muito a proposta.
Destacamos dois pontos de maior importância: 1)ela abre um espaço para
interagir com aqueles que, de outra forma, continuariam isolados e 2)o cerne da
proposta de redução de danos é a inversão da relação de poder entre usuário e
droga, que deixa de ser comandado por ela e busca convivência menos conflituosa
e mais harmônica. Ser capaz de pequenas vitórias como deixar para depois,
trocar uma seringa, limpar o braço antes de se aplicar, preocupar-se em se
cuidar. Acrescentamos a estratégia baseada na troca de compulsões mais danosas
por outras compulsões menos danosas (e mais ou menos aceitáveis conforme o
olhar que julga). Exemplos são a substituição do crack pela maconha e do cigarro por adesivos com nicotina. Estas
ações se legitimam enquanto etapas no processo de recuperação da
“normatividade” dos usuários, além do aspecto prático de reduzir transmissão de
doenças entre usuários de drogas injetáveis.
Convivência
É talvez o ponto mais difícil e polêmico.
Cremos que é possível para um usuário estar integrado à sociedade sem causar
danos a si próprio nem aos outros, a exemplo dos tabagistas (mesmo sabendo que
lhes faz mal para a saúde); os “alcoolistas sociais”, os canabistas
recreativos, os usuários de cocaína (inalada ou injetada) que convivem na
sociedade sem sequer serem percebidos.
Combatemos o abuso, uma das formas de
“uso indevido”, o que implica reconhecermos a existência de “usos devidos”:
álcool e maconha como ritual de amizade (o álcool até como constituinte da
dieta, por exemplo, dos mediterrâneos); LSD, ayahuasca, mescalina e cogumelos
por pessoas que, em grupo ou isoladamente, os utilizam em busca de
espiritualidade e crescimento pessoal (inclusive o uso simbólico do vinho nos
rituais católicos); os calmantes, opióides e anfetaminas em tratamentos
médicos; ou qualquer droga quando consumida simplesmente como um dos prazeres
da vida. O que caracteriza “uso devido” é ausência de compulsão patológica e de
danos para a coletividade. É claro que não estamos considerando os aspectos
jurídicos neste conceito de “devido”.
Portanto, é possível ser feliz COM
drogas, ou melhor, a felicidade não precisa ser definida em função da presença
ou ausência de substâncias na vida das pessoas. Ocorre que não temos respaldo
jurídico e, mais grave, consenso e legitimidade social para essa assertiva, o
que a torna arriscada e, em contexto de intolerância, quase impraticável para
os usuários de drogas ilícitas.
CONCLUSÃO
As drogas tem efeitos diferentes, as
pessoas têm motivações diferentes, os contextos de contato com estas
substâncias são diferentes: tudo isso deve ser considerado quando buscamos
definir se o uso pode ser tolerado ou não. Não cabe rotular todos os usos como
desvios de comportamento, e há que nos fixarmos mais nos padrões de uso que nas
propriedades farmacológicas das substâncias para ações mais efetivas na
prevenção ou redução de danos decorrentes do contato com elas e,
principalmente, da segregação e marginalidade (às vezes também criminalidade) que
as envolve (onde se inclui necessidade de revermos nossas próprias reações à
existência de drogas).
Nossa meta deve ser pessoas
relacionando-se com o mundo e uns com os outros de maneira não danosa e
mutuamente respeitosa. Parte dessa postura envolve mais respeito com as
escolhas individuais, inclusive quanto ao uso de drogas. Reduzir a
criminalidade (essencialmente, o tráfico e a violência) é mais importante que
abstinência total de drogas, e passa também pela revisão da legislação sobre o
assunto: já é hora de ampliação das discussões para incluirmos aspectos
sociais, econômicos, políticos, de modo a compreendermos melhor as razões do
discurso oficial conflitante, de incitação ao consumo de drogas legais e
“tolerância zero” com as ilegais.
Podemos resumir nossa proposta nos
seguintes pontos: postura afetiva e não condenatória; não compactuação com
injustiças, sejam contra ou a favor do uso; não à “guerra às drogas” (que na
verdade é guerra aos usuários); informação e busca de senso crítico, não
condicionamentos.
Todos os temas abordados neste III
Seminário TUDOHAVER (protagonismo, intervenções lúdicas, adolescente e família,
educação ambiental) contribuem para aqueles objetivos, sendo portanto também
prevenção de abuso de drogas e dos danos dele decorrente: se se busca formar
pessoas com dignidade, aptas a exercerem suas escolhas de maneira livre e
consciente, balisados pela ética, estamos prevenindo abuso de drogas e muitos
outros agravos.
Numa época de crise mundial, fim do
emprego, epidemia de aids, desastres ecológicos, guerras, violência urbana,
fome, perda de senso ético, não nos espanta que algumas pessoas passem a falar
em “fim-do-mundo”. São os apocalípticos.
Mas há outros, que dizem não ao conformismo e ao determinismo, não renunciam à
decisão de influir nos seus destinos, apoiados em mútuo respeito e cooperação,
cientes de nossa capacidade e coragem para agir e reagir. São os integrados[8] . Não nos excluímos dos desafios. Nem
das soluções. Terminamos oferecendo um poema de TAGORE, ilustrando nosso estado
de espírito frente a este desafio.
“(...)
Não me deixe rezar
para ser protegido contra perigos,
mas para ser
destemido ao enfrentá-los.
Não me deixe pedir
para amenizar a minha dor,
mas pela coragem de
suplantá-la.
Não me deixe procurar
por aliados no campo da batalha da vida,
mas por minha própria
força.
Não me deixe suplicar
de medo aflito para ser salvo,
mas para ter
esperança na paciência de conquistar minha liberdade.
Permita-me não ser
covarde, sentindo sua clemência apenas no meu êxito,
mas permita-me sentir
sua mão no meu fracasso.”
Rabindranath
Tagore - “A colheita das frutas”.
AGRADECIMENTOS:
A Walter Ude Marques e Marília Greco,
pelos comentários. A Francisco Bastos, pelas sugestões.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
BASTOS, FI. A (re)construção social do objeto
droga. in Clínica AMMOR e Programa para Infância Desfavorecida no Meio Urbano -
União Européia. Relatório do Fórum
Nacional “Drogas, um fenômeno social?”. Belo Horizonte, 16 a 18 de Setembro
de 1999. (mimeo).
BHABHA, H. O local da cultura. Belo Horizonte:
Editora da UFMG, 1998.
BUCHER, R. As ideologias do discurso de combate às
drogas. in BUCHER, R. Drogas e sociedade nos tempos da aids. Cap 2: 27-44.
Brasília: Editora da UNB, 1996.
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Notas
[1] Referência Bibliográfica deste artigo: CAMPOS, Marcelo Araújo (2000). Educadores Sociais e Drogas – uma contribuição para Debate. Adolescência – a emergência do novo. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social de Belo Horizonte e AMEPPE, série TUDOHAVER, nº 3, p 29-36.
[2] Médico, presidente da
Associação de Redutores de Danos de Minas Gerais (REDAMIG) e coordenador de
projetos da Clínica AMMOR no âmbito do Programa para Infância Desfavorecida no
Meio Urbano, da União Européia. Coordenou as oficinas “Drogas” no III Seminário
TUDOHAVER da AMEPPE.
[3] “Resiliência”
refere-se à capacidade de, mesmo sob condições extremamente adversas, conservar
a integridade psíquica, escapando aos traumas.
[4]Veja-se os
textos “As ideologias do discurso de
combate às drogas” (BUCHER, 1996) e “A
arte refinada de detectar mentiras” (SAGAN, 1997),usados em grupos de discussão com educadores.
[5] Referente a
Karl Raimund POPPER, filósofo austríaco falecido em 1994.
[6]Há ainda um outro conceito a ser acrescentado: o de Tolerância: “estado de
adaptação do organismo à presença de determinada substância, que passa a ser
rapidamente metabolizada e portanto tem seus efeitos diminuídos. Com isso,
passa a ser necessária dose maior para se obter o mesmo efeito que se tinha
antes de instalada a tolerância”.
[7]Relativo à
teoria dos reflexos condicionados do fisiologista russo Ivan Petrovich PAVLOV
(1849-1936).
[8]Tomei emprestadas as
palavras de Umberto Eco que dão título ao seu livro “Apocalípticos e
Integrados”, aqui as revestindo de outra leitura.
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