sábado, 28 de julho de 2012

Série "drogas" - Texto 4 - Educadores sociais e drogas

Escrito em 1999 e publicado em 2000, compartilho esse artigo que registra fase inicial da elaboração sobre educação sobre drogas. Aos interessados no tema, sugiro ler também pelo menos o "Freire e Freud...", disponivel neste blog.

Educadores Sociais e drogas – uma contribuição para debate[1]

Marcelo Araújo Campos[2]

“Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai...”

Evangelho de São Mateus, capítulo 15, versículo 11

 

Introdução

Entre as demandas trazidas por educadores que atendem jovens em geral está a lida com usuários de drogas e o desejo de intervenções “preventivas”. Grande parte das instituições atendem jovens em situação de pobreza e, embora uso ou abuso de drogas não ocorram apenas entre estes jovens, o acesso limitado a serviços de educação, saúde e assistência social e a falta de perspectivas outras os tornam população mais vulnerável a agravos à saúde cuja prevenção demanda comportamentos e atitudes construídos a partir de formação humana: capacidade de auto-cuidado, valorização da saúde, habilidades sociais para convivência e superação de pressões. As Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (aids) as gestações não planejadas e os danos decorrentes de abuso de drogas são exemplos que ilustram a situação descrita.
Desta forma, a prevenção dos agravos citados ganha complexidade, devendo ser norteada para o fortalecimento da resiliência[3] e construção de cidadãos aptos a se protegerem, a lutarem por e exercerem seus direitos. Para isso, há que agir buscando reforçar nestes jovens alguns componentes de seu “patrimônio”, entendido como o conjunto de recursos disponíveis para garantir aos indivíduos, aos seus familiares e à coletividade maior segurança e melhor padrão de vida. Este “patrimônio” compõe-se de trabalho, saúde, moradia, relações familiares e comunitárias e, sobretudo, de habilidades, conhecimentos, valores e atitudes que subsidiam e norteiam decisões no enfrentamento de desafios e problemas. Ele define o potencial de reagir às crises, e os fatores que o corroem aumentam o grau de vulnerabilidade a que comunidades e indivíduos estão submetidos (modificado de MOSER, 1996).
Este artigo comenta o trabalho educativo com forma crítica e contextualizada de se abordar o fenômeno “drogas”.

O que buscamos com nossas abordagens?

Propomos como meta a ser tida como “sucesso de um programa de drogas” não necessariamente erradicação do uso de drogas, mas bem-estar dos indivíduos sem dano para a coletividade, portanto incluindo as diversas propostas de enfrentamento – abstinência, tratamento, redução de   danos  e  mesmo   convivência  –  buscando aproveitar o que cada uma delas nos oferece na busca daquele “sucesso” em cada situação específica  – inclusive repressão corretamente direcionada - conforme adiante comentado.
De imediato, tal proposta nos desafia a postura menos emotiva e mais equilibrada frente aos usuários de drogas. Cremos ser útil refletirmos sobre nossa percepção do fenômeno: a aversão às drogas e aos usuários é queixa ou problema? Lembramos a distinção entre “queixa” e “problema”: queixa é uma manifestação de frustração ou desagrado com determinada situação, e seu objetivo é exteriorizar este desagrado, sendo fruto de choque entre o que nos é apresentado e o que “gostamos”. As queixas visam satisfação pessoal, são explicitadas pelo queixoso e só existem na medida em que o próprio queixoso existe. Os problemas são exteriores às pessoas que os diagnosticam, fazem parte do mundo real, e existem a despeito da existência de quem os detecta e verbaliza.
Compreende-se que o objetivo do queixoso será “ter razão”, enquanto quem problematiza estará voltado para busca de soluções (às vezes, à custa de sua satisfação pessoal). Então, a pergunta: lidamos com drogas como queixa ou problema? Ou: o que há de queixa e de problema na forma de lidar com este desafio? E mais: se há problema, o é para quem? Estas perguntas devem considerar uma possível legitimidade das queixas. Neste caso, o que não deve ser tolerado são eventuais injustiças levadas a cabo para satisfazer o queixoso.
No caso das drogas, a busca da satisfação das queixas tem mostrado facetas particularmente perversas, ao ponto de algumas reações terem-se mostrado mais danosas que o próprio uso ou abuso das substâncias, como é o exemplo da punição de usuários de maconha, que causa danos restritos à saúde (comparáveis aos do tabaco), mas cujos usuários em nosso meio são execrados, marginalizados e não raro criminalizados.
Também é fundamental abordar outros pontos mais sutis. É freqüente ouvir sobre a necessidade de “proteger as crianças do flagelo das drogas”. Há que se dissecar os conteúdos ideológicos[4] desta premissa. A começar pela idéia implícita de que “nós, bonzinhos, acudiremos estes pobres indefesos”, quando estamos lidando com pessoas as quais desejamos sejam capazes de desenvolver seu senso ético e moral. É claro que se reconhece que tal construção é gradativa, sendo necessário se adequar os formatos e conteúdos de cada abordagem a cada público-alvo e faixa etária, cabendo hierarquização dos conteúdos de modo a evitar que os contatos com os temas não aconteçam em descompasso com o “momento educativo”. Como coloca SISSA (1999): “crescer significa aprender a adiar o gozo, deslocando-o para objetos compatíveis com o mundo, com os outros, com a autoconservação”.
Contudo há que se cuidar para não transformar esta “proteção” em “violentamento” cultural, ao invés da construção de senso crítico. Cremos que o papel de quaisquer educadores é desenvolver capacidade de construir e avaliar opções frente aos desafios apresentados pela vida, não “convencer” os “educandos”. Também é necessário pontuar diferenças entre “aceitar” e “aprovar”: a disposição em aceitar alguém que tem comportamento que não aprovamos já é um grande passo. Mais uma vez, apenas isso não é suficiente. Aquele “aceitar” não pode ser fundado na idéia de condescendência (aceito por que sou “caridoso”, portanto - subentende-se - estou em patamar “acima” e meus valores são melhores que os de quem aceito, esse “coitado”). O aceitar é um reconhecimento da existência do diferente, do direito a estas diferenças e da importância das contribuições que o outro traz. Aceito por que reconheço neste outro sua singularidade e a singularidade do contexto de sua existência.
Se o “educador” sou eu, a responsabilidade por compreender e tentar a aproximação é minha, não deste outro/diferente. Esta postura, de humildade e que reconhece os limites do nosso “saber”, é também mais afinada com o conceito popperiano[5]  de ciência (“o que tolera ser falseado”), em substituição a ciência como doutrina e em contraposição a postura dogmática, campo da religião/catequese.
Percebem-se já aqui os delineamentos de princípios éticos na relação educador/educando. Queremos enfatizar a necessidade de nos instrumentalizarmos (e também os jovens) com senso crítico e informações que nos auxiliem a tomar decisões, não absorver nem reproduzir regras de comportamentos tidas como “soluções”, soluções estas que podem estar direcionadas para  satisfação da queixa social contra a estranheza causada pela existência de pessoas que optam pela interação com algumas substâncias, diferentes das habitualmente toleradas, como forma de lidarem com suas angústias (que todos temos) e busca de prazer.
O conceito de drogas que oferecemos para debate é: tudo com o qual se estabelece compulsão ou relação doentia, o “doentia” definido na medida do espaço ocupado em detrimento de capacidade de se relacionar e interagir com o mundo, a despeito da existência ou não de danos à saúde”. Simplificando, seria aquilo com o qual se pode criar relação “viciosa”.
Estamos evitando usar a expressão “vício”, a nosso ver confusa. Uma tentativa de definição seria: compulsão exagerada e desorganizadora da economia psíquica, definida não tanto pela freqüência da ocorrência do hábito compulsivo (no caso, o uso das substâncias), mas pelo grau de desorganização que tanto sua ausência como o esforço para satisfazê-lo acarretam. Este conceito de “vício” (repetimos nosso desagrado com a palavra) deve ser contextualizado na esfera das normatizações e normalizações. Há que se cuidar para não rotular de maneira simplista o que nos é estranho como “vício”.
Torna-se necessário também acrescentar alguns conceitos que subsidiem as discussões. Vejamos três definições de “dependência”: a)”relação totalitária com a droga, que prejudica todas as outras relações que se pode estabelecer”; b)”estado de ajuste metabólico do organismo, que passa a necessitar de uma substância que vem de fora para funcionar normalmente, enquanto os organismos habitualmente funcionam sem ela” [6] ; c) ”estado no qual só se funciona ou se sente bem em função da presença de algo. Chama-se de dependente ao indivíduo que estabelece tal relação de necessidade absoluta, relação essa inexistente para os ‘normais’”.

O primeiro conceito é definido em função do espaço ocupado pelo objeto “droga”; o segundo pela propriedade química de algumas substâncias de modificarem o funcionamento habitual do organismo (e nem todas as drogas têm essa propriedade), enquanto o terceiro inclui não só a dependência “física”, mas fundamentalmente a canalização de comportamento compulsivo do usuário (uma “vítima ativa” no processo de criação da dependência) para algo, que sequer necessita ser uma substância (conforme a definição de droga acima proposta).  A interrupção súbita, após longo período de uso continuado de algumas drogas capazes de causar dependência física - como álcool, nicotina, heroína - pode levar à síndrome de abstinência”, definida como “conjunto de sinais e sintomas causados pela ausência dos efeitos de determinadas substâncias no organismo dependente, que se adaptou a só funcionar normalmente com sua ajuda”.

Cremos que a distinção entre dependência física e psicológica seja útil para abordagens terapêuticas, mas pouco útil em tentativas de classificação de “periculosidade” de drogas, ou em drogas “pesadas” e “leves”: preferimos falar em usos pesados ou não de qualquer droga, já que o uso leve e ocasional de uma droga tida como “pesada” (como a heroína) pode ser menos danoso que o uso pesado de uma droga “leve” como a maconha.
Essa distinção ajuda a compreender como o tratamento medicamentoso dos “vícios” pode ser apenas transferência da tendência compulsiva (inicialmente dirigida para a “droga”) para o medicamento legal e prescrito, do qual o indivíduo compulsivo às vezes se “re-apropria”. Sob este ponto de vista, a dependência “psicológica” é de tratamento mais difícil que a dependência “física”, ou melhor, o componente psicológico da dependência construída com a substância pode ser mais difícil de ser desmanchado que a adaptação do organismo.
É fundamental, portanto, deixar explícito que o que faz uma droga mais ou menos “perigosa” não é definido pelas suas propriedades farmacológicas, mas pela relação que o usuário estabelece com ela, e que a dependência física é consequência, não causa, de uso continuado. Da mesma forma como as pessoas que bebem álcool (uma droga de alto poder adictivo) nos fins de semana (“uma cervejinha com os amigos”) não são consideradas “alcoólatras”, não há sentido em rotular de “viciados” os usuários recreativos ocasionais de qualquer droga. O critério estaria sendo moral e não farmacológico.

NOWLIS (1975) sugere a seguinte classificação dos usuários de drogas: “experimentador”; “recreativo” ou “ocasional”; “habitual” e “dependente/toxicômano”. Podemos ir além daquelas definições e reconhecer a existência dos que fazem uso (com ou sem compulsão) e dos que abusam (não necessariamente de forma compulsiva). Exemplificando, há pessoas que têm o hábito de tomar uma dose de cachaça ao almoço e sequer ficam embriagadas (uso sem dano à saúde), mas talvez não tolerassem ficar sem esta dose (o que sugeriria “vício”). Também há pessoas que abusam de álcool ocasionalmente (inclusive com algum grau de intoxicação e dano ao fígado), mas não sentem compulsão de beber sempre (abuso sem “vício”). Acrescente-se que a distinção entre uso e abuso nem sempre é simples. Duas doses de cachaça para alguém que vai dirigir pode ser abuso, mas quatro doses em uma festa sem compromissos que exijam reflexos ou atividade intelectual talvez seja “uso”: temos de considerar o contexto.

Interessa ainda lembrar como a predisposição individual (social, psíquica e, em alguns casos, biológica) influencia a construção ou direcionamento de relação compulsiva para a interação com as substâncias. O usuário faz a “droga”, não o contrário: a droga (conforme a definimos acima) é algo de que “se apropria” a tendência compulsiva. No caso das substâncias com propriedades farmacológicas de desencadearem sensações prazerosas enquanto dura o efeito e desprazerosas quando ausentes, a tendência compulsiva é assemelhada ao condicionamento pavloviano[7] em direção à repetição do comportamento capaz de causar prazer ou evitar sofrimento. Nenhuma substância tem a capacidade de instantaneamente criar dependência à revelia da estrutura da personalidade de quem usa, e ninguém abandona o hábito se não estiver motivado a tal.

Abordando os jovens

É fundamental reconhecer a existência e o direito ao prazer e evitar a dicotomia entre prazer e risco. Se o educador apresenta situações desafiantes contrapondo prazer ao risco, a tendência será opção pelo prazer e negação do risco.
Informações corretas ajudam a compreender riscos, portanto viabilizam sua hierarquização e melhor gerenciamento, já que pode haver necessidade de opções intermediárias, mesmo que não “ideais” (adiante discutido). A descrição das formas de uso de drogas é feita com vistas a oportunizar aos adolescentes desde o não contato até o uso seguro, hierarquizando-se riscos e incluindo não apenas potenciais danos à saúde, mas também a execração social a que os usuários estarão expostos.
Aqui cabe lembrar um cuidado: assim como existe uma “biologização do sexo” em algumas correntes “educativas”, que abordam sexualidade apenas como descrição detalhada da anatomia, fisiologia e biologia do ato sexual – portanto ignorando o papel central da fantasia, do erótico, do gozo, da afetividade e das relações de gênero, reduzindo o sexo ao genital, como se ocorresse entre órgãos e não entre pessoas; ocorre “farmacolização das drogas”, exposições detalhadas de mecanismos de ação e toxicologia das drogas, mas sem espaço para discutir o prazer, os significados do uso ou abuso para os indivíduos, as representações afetivas e emotivas que permeiam o uso, a construção social e pessoal do “objeto-droga”. A biologia da reprodução está para o sexo como a farmacologia e a toxicologia estão para as drogas: podem ser maneiras de mostrar o explícito ocultando o que realmente interessa, mas não pode nem deve ser discutido por afrontar o moralmente instituído. É o que KOSIK chamou de “pseudo-concreticidade”. No caso do sexo, a postura biologicista reduz sexo a algo que acontece nos genitais. Quanto às drogas, a farmacologia apontará, principalmente, o cérebro. As pessoas em sua totalidade não vêm ao caso.
Também temos de considerar que estamos lidando com o real, portanto considerar danos provenientes das reações da sociedade contra as pessoas que se atrevem a exercer opções diferentes do que é legal ou moralmente tolerado, como acontece com usuários de drogas. A maioria absoluta dos usuários de álcool e drogas ilegais – cocaína, maconha, LSD, inalantes - são usuários recreativos ou circunstanciais e não sofrem necessariamente dano tóxico decorrente do uso, mas seus usuários estão expostos a segregação e processo penal.
Portanto, a despeito da inocuidade de embriaguez ocasional por álcool ou um cigarro de Cannabis, o primeiro é tido como demonstração de adequação às normas de bem viver, mas o segundo poderá ser não só demonizado, mas criminalizado. Habitualmente, em nosso meio, alguém alcoolizado passa ridículo, enquando alguém “drogado” causa medo e hostilidade. Não espanta que alguns usuários digam de maneira irônica “tenho problema com a polícia, não com a droga”. Esta segregação ainda marginaliza e afasta os usuários, um contra-senso se a proposta é “recuperá-los”. Observe-se os jovens em situação de rua que, antes de completar 18 anos, abusam de cola, thinner e outras drogas, cientes da relativa impunidade de que gozam. Ao completar 18 anos passam a ficar mais vulneráveis à perseguição da lei e então transferem sua compulsão para o álcool, legal e tolerado. Perdem o status de “meninos de rua” e passam a ser “vagabundos bêbados”.

Lidando com os pontos atrativos

Consideramos pouco satisfatória a definição negativista que identifica o consumo de drogas apenas como resposta a “problemas”, conforme VARGAS (1998), que nos alerta a “evitar fazer do consumo de drogas um fenômeno que se reduza à condição de resposta a crises ou carências”.  
Josenir DE OLIVEIRA (1991) aponta como motivações para uso de droga os seguintes pontos: pressão do grupo e papel da droga como unificador no grupo; prazer e fuga através de prazer solitário; jogo com a morte e transgressão. A discussão em detalhe destes pontos extrapola os objetivos deste texto, mas gostaríamos de comentar dois pontos: a pressão de grupo e a busca da transgressão.
Hanah Arendt e BHABHA (1998) abordam a pressão do grupo como o desejo do “pertencimento”: mais que desejo de ser amado, há medo de ser rejeitado. A necessidade de aprovação (medo da rejeição) é mais aguda entre jovens com baixa auto-estima, o que os torna mais carentes de aceitação pelo grupo e mais ansiosos por se adequarem aos modelos tidos como ideais: quem picha o prédio mais alto, quem é mais agressivo com a torcida rival, quem corre mais riscos. Exemplos de comportamentos adotados em busca do “pertencimento” são as galeras de funk, as torcidas organizadas, as gangues de pichadores, as bandas de rock, os neonazistas “skin-heads” e os grupos de usuários de drogas.

É curioso como sentimento tão nobre (o desejo de ser aceito e amado) possa se traduzir em violentas explosões contra as facções contrárias (ou simplesmente diferentes): quanto maior a aversão ao outro mais explícita fica a identificação com os pares, mais digno de aceitação se torna. Esta tendência pode ser abordada em oficinas comparando-se as facções e mostrando quão semelhantes são entre si, e dando aos jovens espaço onde sejam aceitos, de modo a diminuir sua vulnerabilidade à ditadura dos seus pares. Neste contexto torna-se interessante discutir a liberdade individual em tomar próprias decisões (adolescentes fazem muita questão de serem “diferentes” em sua individualidade): ninguém precisa ser igual ao outro. Temos o direito de escolhas outras que as definidas pelo grupo. As pessoas devem ter liberdade para escolhas individuais (o que soa muito sedutor para adolescentes contestadores de normas, inclusive quando impostas por outros adolescentes).

O outro ponto que desejamos abordar passa por nossa tendência a “glamourizar” as drogas. Se o uso acontece como forma de contestação às normas do “sistema” e às autoridades, temos de ser cuidadosos em não reforçar o “mito drogas” (“matam, são muito perigosas, caminho sem volta, coisa de marginal”): quanto mais condenadas, mais atraentes serão. A imposição de regras de forma autoritária, definindo o que é “proibido” de forma contraditória subestima a inteligência dos submetidos à regra, que se sentem agredidos. Quanto maior a aversão às “autoridades” (principalmente quando se comportam de maneira hipócrita), maior o prazer em violar as regras, mesmo às custas de riscos pessoais: “eu o desprezo (a autoridade) tanto que saboto suas regras mesmo se me fizerem mal à saúde”.
O discurso proibicionista/terrorista ainda tem o inconveniente de reforçar nos usuários o estigma de serem indignos de ajuda e, pior, “irrecuperáveis” (então para quê procurar ajuda?). Ao apresentá-las como realmente são (substâncias capazes de induzir alterações na mente, às vezes condenadas e às vezes aceitas), poderemos estar desmanchando o charme da contravenção. É claro que isso também desculpabiliza o usuário, mas não cremos que haja razão para culpa de fato: há necessidade de cuidado com danos, sejam eles físicos ou sociais, a si próprio ou a terceiros. Cremos ser mais importante discutir os usos que fazemos das substâncias, (e, por analogia, a maneira como lidamos com sexo, dinheiro, esporte, moda e consumo) que discutir efeitos farmacológicos e tentar coibir o contato com objetos presentes no cotidiano e apresentados de maneira “demonizada”.

 

As opções com usuários


Considerando-se o até agora exposto, não é difícil perceber a inexistência de “solução”: há formas de enfrentamento com graus variados de eficácia sobre as diversas faces da questão, e todas as abordagens devem ser em princípio respeitadas, sejam de fundo técnico/científico ou religioso. O que legitima a ciência e a religião é postura altruísta (EINSTEIN, 1984).
O trabalho em rede impõe necessidade de respeito às diferentes correntes ideológicas institucionais, desde que não exista sobreposição de direitos humanos por dogmas religiosos, políticos, ideológicos ou quaisquer outros. As diversas formas de abordar os usuários têm contribuições que não podem ser desprezadas (CAMPOS et al., 1997 e 1998).

Tratamento

Tratamento não significa necessariamente abstinência, mas há pessoas cuja capacidade de controle sobre a compulsão é por demais reduzida para se arriscarem no uso das drogas. Temos, por exemplo, os Alcoólatras Anônimos: como podemos dizer a alguém que, a custo de imenso esforço e sofrimento, conseguiu se organizar sob regras rígidas (“evite o primeiro gole”), que uma dose de cachaça ao almoço pode ser saudável? Como poder-se-ia retirar desta pessoa o substrato, seu ponto de apoio tão trabalhosamente construído? Não creio que tenhamos o direito de cometer tal violência. A não ser, talvez, em contexto de terapia psicanalítica.
Há pessoas que necessitam de limites rigorosos, como a abstinência, inclusive com auxílio de dogmas religiosos, para nortear suas decisões e comportamentos. Não podemos deixar de lamentar, contudo, a limitação que estas posturas radicais representam. Parece triste que a compulsão pela droga seja substituída pela compulsão por dogmas religiosos (“Vicie-se em Jesus”) ou quaisquer outras formas de condicionamento comportamental, por serem redutoras do ser humano (da sua “normatividade”, conforme BASTOS, 1999). Reconhecemos a utilidade destes condicionamentos (frente a limites pessoais) e trocas de compulsão como “mal-menor”, por serem redução da capacidade das pessoas de enfrentarem e conviverem com os desafios e conflitos da existência. Simplificar é realmente mais fácil. Oxalá a abstinência fosse fruto do não desejo pela droga, ao invés de condicionamento compulsivo para reprimir este desejo que permanece e, havendo “recaída”, ainda causará sensação de fracasso. Reprimir a compulsão com abstinência é, portanto, uma forma de controle, mas não pode constituir a norma: antes é exceção aplicável àqueles incapazes de exercerem sua normatividade sem sofrer ou causar danos.

Repressão

Repressão deve ser da esfera das políticas públicas, a serem discutidas pelos educadores. Consideramos que deve ser dirigida a coibir danos, não o uso. Exclua-se a repressão do uso fora de contexto: não se pode tolerar que se dirija sob efeito de drogas que alterem as habilidades mentais necessárias à atividade (a nicotina não causa tais perturbações na dose obtida com cigarros), seja álcool (motoristas de fim de semana), anfetaminas (choferes de caminhão) ou maconha (jovens voltando de um show). Da mesma forma, não se pode tolerar drogas no ambiente de estudo ou trabalho, que demandam capacidade de julgamento e esforço intelectual. Não ignoramos como a cocaína acelera o raciocínio, sendo inclusive usada como droga “instrumental” para aumentar o rendimento no trabalho de executivos, que o álcool é largamente consumido para minorar o sofrimento em condições de trabalho adversas (coveiros, cabistas que trabalham em galerias subterrâneas, catadores de papel, bóias-frias, etc). Mas não é esse o ponto. Estamos falando de aparato repressor ideologicamente produzido para defesa de um status quo que condena o estranho e incentiva o que conhece, sem pesar realmente o que causa mais ou menos danos em termos de coletividade.
A postura repressiva a todo custo tem acarretado não só injustiças, mas enorme dispêndio de recursos com prisão de pessoas por motivos moralmente banais, enquanto favorece o florescimento do mercado (segundo a Interpol, o segundo no mundo em volume de recursos envolvidos, só perdendo para o de armas) explorado por aqueles que, por falta de opções ou oportunismo, a ele se dedicam e defendem com violência. O discurso de regulamentação provavelmente desagradará tanto aos proibicionistas quanto aos traficantes.

Redução de danos

Redução de danos é estratégia de saúde pública cujo ponto mais conhecido é a troca de seringas sujas por limpas com usuários de drogas injetáveis, mas isso é reduzir muito a proposta. Destacamos dois pontos de maior importância: 1)ela abre um espaço para interagir com aqueles que, de outra forma, continuariam isolados e 2)o cerne da proposta de redução de danos é a inversão da relação de poder entre usuário e droga, que deixa de ser comandado por ela e busca convivência menos conflituosa e mais harmônica. Ser capaz de pequenas vitórias como deixar para depois, trocar uma seringa, limpar o braço antes de se aplicar, preocupar-se em se cuidar. Acrescentamos a estratégia baseada na troca de compulsões mais danosas por outras compulsões menos danosas (e mais ou menos aceitáveis conforme o olhar que julga). Exemplos são a substituição do crack pela maconha e do cigarro por adesivos com nicotina. Estas ações se legitimam enquanto etapas no processo de recuperação da “normatividade” dos usuários, além do aspecto prático de reduzir transmissão de doenças entre usuários de drogas injetáveis.


Convivência

É talvez o ponto mais difícil e polêmico. Cremos que é possível para um usuário estar integrado à sociedade sem causar danos a si próprio nem aos outros, a exemplo dos tabagistas (mesmo sabendo que lhes faz mal para a saúde); os “alcoolistas sociais”, os canabistas recreativos, os usuários de cocaína (inalada ou injetada) que convivem na sociedade sem sequer serem percebidos.
Combatemos o abuso, uma das formas de “uso indevido”, o que implica reconhecermos a existência de “usos devidos”: álcool e maconha como ritual de amizade (o álcool até como constituinte da dieta, por exemplo, dos mediterrâneos); LSD, ayahuasca, mescalina e cogumelos por pessoas que, em grupo ou isoladamente, os utilizam em busca de espiritualidade e crescimento pessoal (inclusive o uso simbólico do vinho nos rituais católicos); os calmantes, opióides e anfetaminas em tratamentos médicos; ou qualquer droga quando consumida simplesmente como um dos prazeres da vida. O que caracteriza “uso devido” é ausência de compulsão patológica e de danos para a coletividade. É claro que não estamos considerando os aspectos jurídicos neste conceito de “devido”.
Portanto, é possível ser feliz COM drogas, ou melhor, a felicidade não precisa ser definida em função da presença ou ausência de substâncias na vida das pessoas. Ocorre que não temos respaldo jurídico e, mais grave, consenso e legitimidade social para essa assertiva, o que a torna arriscada e, em contexto de intolerância, quase impraticável para os usuários de drogas ilícitas.
 
CONCLUSÃO

As drogas tem efeitos diferentes, as pessoas têm motivações diferentes, os contextos de contato com estas substâncias são diferentes: tudo isso deve ser considerado quando buscamos definir se o uso pode ser tolerado ou não. Não cabe rotular todos os usos como desvios de comportamento, e há que nos fixarmos mais nos padrões de uso que nas propriedades farmacológicas das substâncias para ações mais efetivas na prevenção ou redução de danos decorrentes do contato com elas e, principalmente, da segregação e marginalidade (às vezes também criminalidade) que as envolve (onde se inclui necessidade de revermos nossas próprias reações à existência de drogas).
Nossa meta deve ser pessoas relacionando-se com o mundo e uns com os outros de maneira não danosa e mutuamente respeitosa. Parte dessa postura envolve mais respeito com as escolhas individuais, inclusive quanto ao uso de drogas. Reduzir a criminalidade (essencialmente, o tráfico e a violência) é mais importante que abstinência total de drogas, e passa também pela revisão da legislação sobre o assunto: já é hora de ampliação das discussões para incluirmos aspectos sociais, econômicos, políticos, de modo a compreendermos melhor as razões do discurso oficial conflitante, de incitação ao consumo de drogas legais e “tolerância zero” com as ilegais.
Podemos resumir nossa proposta nos seguintes pontos: postura afetiva e não condenatória; não compactuação com injustiças, sejam contra ou a favor do uso; não à “guerra às drogas” (que na verdade é guerra aos usuários); informação e busca de senso crítico, não condicionamentos.
Todos os temas abordados neste III Seminário TUDOHAVER (protagonismo, intervenções lúdicas, adolescente e família, educação ambiental) contribuem para aqueles objetivos, sendo portanto também prevenção de abuso de drogas e dos danos dele decorrente: se se busca formar pessoas com dignidade, aptas a exercerem suas escolhas de maneira livre e consciente, balisados pela ética, estamos prevenindo abuso de drogas e muitos outros agravos.
Numa época de crise mundial, fim do emprego, epidemia de aids, desastres ecológicos, guerras, violência urbana, fome, perda de senso ético, não nos espanta que algumas pessoas passem a falar em “fim-do-mundo”. São os apocalípticos. Mas há outros, que dizem não ao conformismo e ao determinismo, não renunciam à decisão de influir nos seus destinos, apoiados em mútuo respeito e cooperação, cientes de nossa capacidade e coragem para agir e reagir. São os integrados[8] . Não nos excluímos dos desafios. Nem das soluções. Terminamos oferecendo um poema de TAGORE, ilustrando nosso estado de espírito frente a este desafio.

“(...)
Não me deixe rezar para ser protegido contra perigos,
mas para ser destemido ao enfrentá-los.
Não me deixe pedir para amenizar a minha dor,
mas pela coragem de suplantá-la.
Não me deixe procurar por aliados no campo da batalha da vida,
mas por minha própria força.
Não me deixe suplicar de medo aflito para ser salvo,
mas para ter esperança na paciência de conquistar minha liberdade.
Permita-me não ser covarde, sentindo sua clemência apenas no meu êxito,
mas permita-me sentir sua mão no meu fracasso.”

Rabindranath Tagore - “A colheita das frutas”.


AGRADECIMENTOS:

A Walter Ude Marques e Marília Greco, pelos comentários. A Francisco Bastos, pelas sugestões.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BASTOS, FI. A (re)construção social do objeto droga. in Clínica AMMOR e Programa para Infância Desfavorecida no Meio Urbano - União Européia. Relatório do Fórum Nacional “Drogas, um fenômeno social?”. Belo Horizonte, 16 a 18 de Setembro de 1999. (mimeo).
BHABHA, H. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.
BUCHER, R. As ideologias do discurso de combate às drogas. in BUCHER, R. Drogas e sociedade nos tempos da aids. Cap 2: 27-44. Brasília: Editora da UNB, 1996.
CAMPOS, MA, ADAMS IK, COSTA R, ALMEIDA T, MARTINS RB, van ZEELAND A. Projeto “Te cuida menino!”: consensos para implantação de atividades preventivas. in II CONGRESSO BRASILEIRO DE PREVENÇÃO DE DST/AIDS. Brasília, 18-21/novembro/1997. Anais do Congresso, Brasília, Ministério da Saúde, 1997. Pg 94 (resumo).
CAMPOS, MA, ADAMS IK, COSTA R, ALMEIDA T, MARTINS RB, van ZEELAND A. A multi-institucional Street-Youth prevention program in Brazil: searching for consensus. Geneve, jun/28-jul/3/1998. (abstract).
DE OLIVEIRA, JA. A fase adolescente e a motivação para a droga. in BUCHER, R. (org) Prevenção ao uso indevido de drogas. Programa de Educação Continuada. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1991, vol. I, 2a Edição, páginas 63-76.
EINSTEIN, A. Ciência e Religião. in EINSTEIN, A. Escritos da Maturidade. Cap 8: 25-34. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
KOSIK, K. Dialética do concreto, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
MOSER, C. Situaciones criticas, reacción de los hogares de Cuatro Comunidades urbanas pobres ante la vulnerabilidad y la pobreza. Série de Estudios e Monografias sobre el desarrollo ecologicamente sostenible, nº 75. Washington DC: Banco Mundial, 1996.
NOWLIS, H. A verdade sobre as drogas. Rio de Janeiro: IBECC-UNESCO, 1975
POPPER, KR. Realismo e objetivo da ciência. Lisboa: Dom Quixote, 1987.
ROBINSON R. O grande livro da Cannabis. Guia completo de seu uso industrial, medicinal e ambiental. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1999.
SAGAN, C. A arte refinada de detectar mentiras. in SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios – a ciência vista como uma vela no escuro. Cap 12: 200-217. São Paulo: Cia das Letras, 1997.
SILVA, MS. Drogas, se liga! – O livro das drogas. O que pais e filhos, mestres e alunos devem saber antes de aprovar ou condenar. Rio de Janeiro: Record, 1997.
SISSA, G. O prazer e o mal: filosofia da droga. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999, pg 13.
VARGAS, EV. Os corpos intensivos: sobre o estatuto social do consumo de drogas legais e ilegais. In DUARTE, LFD e LEAL, OF (organizadores). Doença, Sofrimento, Perturbação: perspectivas etnográficas. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1998. pg 123.


Notas
[1] Referência Bibliográfica deste artigo: CAMPOS, Marcelo Araújo (2000). Educadores Sociais e Drogas – uma contribuição para Debate. Adolescência – a emergência do novo. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social de Belo Horizonte e AMEPPE, série TUDOHAVER, nº 3, p 29-36.
[2] Médico, presidente da Associação de Redutores de Danos de Minas Gerais (REDAMIG) e coordenador de projetos da Clínica AMMOR no âmbito do Programa para Infância Desfavorecida no Meio Urbano, da União Européia. Coordenou as oficinas “Drogas” no III Seminário TUDOHAVER da AMEPPE.
[3] “Resiliência” refere-se à capacidade de, mesmo sob condições extremamente adversas, conservar a integridade psíquica, escapando aos traumas.
[4]Veja-se os textos “As ideologias do discurso de combate às drogas” (BUCHER, 1996) e “A arte refinada de detectar mentiras” (SAGAN, 1997),usados em grupos de discussão com educadores.
[5] Referente a Karl Raimund POPPER, filósofo austríaco falecido em 1994.

[6]Há ainda um outro conceito a ser acrescentado: o de Tolerância: “estado de adaptação do organismo à presença de determinada substância, que passa a ser rapidamente metabolizada e portanto tem seus efeitos diminuídos. Com isso, passa a ser necessária dose maior para se obter o mesmo efeito que se tinha antes de instalada a tolerância”.

[7]Relativo à teoria dos reflexos condicionados do fisiologista russo Ivan Petrovich PAVLOV (1849-1936).
[8]Tomei emprestadas as palavras de Umberto Eco que dão título ao seu livro “Apocalípticos e Integrados”, aqui as revestindo de outra leitura.

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