sábado, 28 de julho de 2012

Psicanálise e educação

Outro texto escrito na condição de estudante (e ignorante) de psicanálise, em 2004. Mais uma vez, as notas contêm tanto comentários e explicações como referências bibliográficas. A formação em psicanálise trouxe insights aproveitados na elaboração, uns quatro anos depois, com Fabiana Barggiona, do que chamamos de "educação concreta" (o que sugere termos superado a limitação ontológica inerente à psicanálise). Este texto também foi uma das bases do artigo "Freire e Freud..."..

Sobre psicanálise e educação



Marcelo Araújo Campos[1]



            Este texto se propõe a aplicar alguns marcos teóricos da psicanálise, mais especificamente da metapsicologia freudiana, à educação. Ao mesmo tempo, são oferecidas conclusões pessoais do autor para que o objetivo original do texto – servir como instrumento de avaliação do aproveitamento pelo autor do curso – seja viabilizado.

Parte-se de dois olhares sobre a educação oriundos das duas áreas – psicanálise e educação - que se tenta articular: um conceito de Freud e um comentário por Paulo Freire sobre o papel do educador, em cujas linhas pode-se perceber algo do conceito freiriano de “educar”.

Diz Freud: “Podemos descrever a educação como um incitamento à dominação do princípio do prazer e à sua substituição pelo princípio da realidade”[2].

E Freire:

“O professor deve ensinar. É preciso fazê-lo. Só que ensinar não é transmitir conhecimento. Para que o ato de ensinar se constitua como tal, é preciso que o ato de aprender seja precedido do, ou concomitante ao, ato de apreender o conteúdo ou o objeto cognoscível, com que o educando se torna produtor também do conhecimento que lhe foi ensinado. Só na medida em que o educando se torne sujeito cognoscente e se assuma como tal, tanto quanto sujeito cognoscente é também o professor, é possível ao educando tornar-se sujeito produtor da significação ou do conhecimento do objeto. É neste movimento dialético que ensinar e aprender vão se tornando conhecer e reconhecer. O educando vai conhecendo o ainda não conhecido e o educador, re-conhecendo o antes sabido”[3].



Uma síntese possível destes dois olhares seria entender o “educar” como uma busca de re-significar, de provocar no sujeito novas “equações psíquicas” cujos resultados sejam “economicamente” vantajosos (ou pelo menos não “deficitários”) em termos de investimento libidinal, onde o objetivo daquele que atua como provocador do processo (o  “educador”), é a construção, com o (e “no”) “educando” de habilidades de auto-cuidado, autonomia e de gerenciar situações onde as duas primeiras habilidades se choquem. Considerar este gerenciamento como um dos produtos esperados da educação é necessário para evitar o risco de se entender a educação como adestramento em atitudes socialmente valorizadas[4], não comprometidas com o bem estar dos educandos, ao invés de estimular a construção neles de seu senso crítico e de sua capacidade de se posicionarem frente ao antagonismo “segurança” (princípio da realidade) / “liberdade” (princípio do prazer).

Parte do processo seria trazer os conflitos, as equações “mal resolvidas”, ao consciente do sujeito, onde ele possa submetê-las (com maior ou menor grau de eficiência) ao princípio da realidade. Este processo pode ser fonte de prazer (se houver demanda pelo solução do conflito, ou seja, se houver incômodo passível de resolução com sua re-significação), dado o alívio de tensão psíquica que os insigths oferecem como recompensa quando este processo se dá. A propósito, Piaget considera que um dos papéis do educador seja “causar desequilíbrio”: a tensão resultante agirá como “mola propulsora” do desenvolvimento da  “espiral cognitiva” em busca de um “equilíbrio” que, contudo, é inatingível.

Aprofundando-se a aproximação psicanálise/educação, pode-se exercitar reflexões sobre a busca de construção, por exemplo, de formas de intervenções educativas com objetivo específico, como é o caso das propostas de educação para a prevenção de contágio por infecções sexualmente transmissíveis. Uma questão crucial e facilmente identificada nesta aproximação é: o que o comportamento de risco (no caso, relações sexuais sem proteção e envolvendo contato com secreções genitais potencialmente contaminadas por microorganismos patogênicos) tem de ato volitivo ou de sintoma?

Esta pergunta é fundamental porque a resposta a ela direciona o raciocínio de quem se propõe a abordar “preventivamente” o tema aplicando o olhar da metapsicologia freudiana: se o comportamento de risco (ou sua expressão passiva - a recusa da proteção) é resultado da volição (exemplo: não usar a camisinha como forma de aumentar a excitação sexual ao agregar a ela a excitação do perigo de acontecer o contágio – relatada algo estereotipadamente entre homossexuais na Califórnia, mas provavelmente muito mais comum), a estratégia poderia ser investir na desconstrução da ingenuidade, re-significando o comportamento (ou melhor, buscando provocar reflexões para aquela re-significação) não apostando apenas na oferta de informações objetivas, mas essencialmente explorando a subjetividade dos sujeitos em risco: que sexo é esse que necessita do perigo para ser prazeroso? O que o perigo tenta substituir? Essa substituição é eficaz? Observe-se que esta re-significação será menos eficiente quando se usa “palestras” e mais provável de ocorrer quando se usa técnicas de dinâmicas de grupo, onde os sujeitos possam vivenciar, refletir e discutir, de preferência com seus iguais (“peer-education”[5]) seus sentimentos e atitudes, o processo apenas “facilitado” pelo “educador”.

A outra possibilidade a ser explorada no exemplo acima é de que aquela recusa da proteção seja resultado de recalque, ou seja, o processo psíquico que resulta no comportamento esteja ocorrendo no inconsciente (Ics), e portanto poderá estar fora do alcance da reflexão e tentativa de re-significação proposta acima. Neste caso (o comportamento de risco como sintoma), ainda é necessário tentar caracterizar se ele se manifesta em estrutura psíquica neurótica ou psicótica (trata-se de recalque ou de falha na capacidade de reconhecer a realidade?), já que também esta distinção implicará abordagens diferentes: condiciona-se psicóticos e fomenta-se re-significações às cadeias de significantes dos neuróticos para tentar esvaziar de importância na economia psíquica o investimento “equivocado” cuja manifestação é o sintoma (inclusive trabalhando-se a “constituição do recalque” ou da obsessão).

Resumindo, pode-se dizer que o “educar” é, para os neuróticos (maioria da população), oferecer re-significações; e para os psicóticos (e também para os perversos, embora por motivos ligeiramente diferentes), oferecer arcabouço que lhes organize o “ethos”: se não lhes é possível alcançar a renúncia às suas pulsões, renúncia esta característica do cumprimento do processo edípico, é necessário disponibilizar limites externos ao sujeito (tutela) que lhes possibilite o máximo de autonomia (convivência em sociedade/segurança no e para o grupo) e auto-cuidado (liberdade para explorar a satisfação de suas pulsões).

            No que tange às estratégias de re-significação, aplicáveis aos neuróticos, um norteador é a desconstrução de estereótipos como tentativa de trazer para o consciente as cadeias de significantes, refletindo sobre a realidade, de modo a explicitar onde os comportamentos se amparam em ilusões e “preconceitos”[6] que possam ser iluminados pelo princípio da realidade. A importância desta estratégia é assim apresentada por Perrone-Moisés (1978): “(...) Combater os estereótipos é pois uma tarefa essencial, porque neles, sob o manto da naturalidade, a ideologia é veiculada, a inconsciência dos seres falantes com relação a suas verdadeiras condições de fala (de vida) é perpetuada.”[7]

            Como todo processo psíquico de estruturação de sentidos, esta “re-significação” também pode exigir tempo e só acontecer a posteriori, ou seja, os resultados das intervenções educativas podem demandar um período de “latência” (onde são “esquecidos”) para se incorporarem ao sujeito nos seus processos de tomada de decisões e serem concretizadas em novas atitudes. Aliás, este “efeito tardio” da intervenção educativa é parecido com o conceito freudiano de “nachträglich”, tendo sido algo intuitivamente expresso por Barthes (1978):

“(...) Empreendo, pois, o deixar-me levar pela força de toda vida viva: o esquecimento. Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível.”[8]



A citação de Barthes oferece oportunidade para explorar outro aspecto fundamental de um processo educativo exitoso e ético: a recusa da educação como exercício de poder, também profundamente presente na obra de Paulo Freire. Esta recusa é necessária para se evitar o risco de enorme injustiça: o de culpabilização dos neuróticos que insistem em comportamentos de risco a despeito de terem sido “informados dos riscos” ou “terem acesso à educação”, culpabilização esta mais presente quando o que está sendo discutido são comportamentos individuais com impacto no bem estar do grupo social: em geral, é exigido “comportamento virtuoso”. Conforme apontado acima, aqui se define educação como processo com dois eixos: a construção de autonomia e o autocuidado, ambas com impacto tanto na capacidade de estabelecer relações com o grupo mais harmônicas como de não negligenciar a própria sobrevivência e satisfação. Portanto, imaginar que a atuação apenas no sujeito, exigindo que ele faça todo o trabalho - se adestrar nas habilidades socialmente valorizadas e re-organizar suas cadeias de significantes - é no mínimo pouco eficaz.

Percebe-se então que a resposta para certa pergunta antiga (já citada num dos diálogos de Platão) “é possível ensinar a virtude?” implica reconhecermos que “virtude”, ou melhor, “comportamento virtuoso”, é naturalmente manifestado quando vale a pena para quem o adota, ou seja, quando, além de valorizado pelo grupo, é compensador para o indivíduo que se esforçar em renunciar às suas pulsões em nome daquela harmonia social. Autonomia não pode ser confundida com isolamento, como pode ser ilustrado com citação de Jonsen (1991) comentando a necessidade de atitude responsável por parte de profissionais da saúde portadores de doenças contagiosas:



"responsabilidade individual é um ciclo de respostas interpessoais e comunitárias (…) o problema de deixar o locus da responsabilidade com o profissional  (...) é que isso o deixa só e isolado (...) e esse isolamento pode erodir a responsabilidade ao privar o indivíduo do socorro, ajuda, encorajamento, isto é, da resposta necessária para manter a noção de que a responsabilidade é necessária e reconhecida como boa.[9]”.



            Já Critelli (2003) expressa este processo de outra forma:



                        “(…) é para uma comunidade que nossa histórias pessoais e nossas tradições fazem sentido e se conservam. Ela é a memória de nossa presença no mundo. Ela nos dá valor e o significado de nossas ações, de nossos sentimentos e de nossos pensamentos. Nenhum ser humano pode se desenvolver e formar seu caráter sem se mirar no exemplo daqueles com quem convive e sem receber deles críticas e elogios. Assim crescemos para o bem e para o mal.”[10]



            O que se depreende deste arrazoado é que o oposto dos comportamentos tidos como “anti-sociais” e rotulados de “rebeldia” (seja ato volitivo ou sintomático) não é atitude de “obediência”, mas confiança. Se são desejadas relações sociais mais harmônicas e com menos violência ou agressividade, não se pode abrir mão da busca de contexto socialmente mais justo. Essa é a mesma conclusão que se pode tirar da leitura do texto de Hélio Pellegrini em 1984[11] e que, nesta tentativa de aplicação do olhar psicanalítico à educação, conduz à conclusão de que o “educar” talvez seja facilitar aos “educandos” vivenciar e superar o complexo de édipo, e que esse trabalho perderá seu sentido se não estiver também comprometido com a transformação social. Tal conclusão, ainda que não formulada nestes termos nem com este arrazoado psicanalítico, re-encontra-se com as teorias de Paulo Freire[12], que insistia na necessidade de se educar para “aprender a ler o mundo” e no engajamento político-transformador dos que se propõem (ou, como ele nos diz, “se atrevem”) a enfrentar esta “impossível” profissão de educar e transformar o mundo, e que, se tomada como válida, também implica a psicanálise em amplos desafios teóricos para que sua prática seja eticamente boa.





[1] Texto preparado como “avaliação formativa” de aproveitamento do curso “Evolução do pensamento de Freud – uma introdução”, do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. Belo Horizonte, dezembro de 2003.
[2] FREUD, S. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. (1911). apud MILLOT, C. Freud antipedagogo. Tradução de Ari Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, pg 55, 1987.
[3] FREIRE, P. Professora sim, tia não – cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olhos d’água, 1993.
[4] Este risco, aliás, não é diferente do risco de atuação do psicanalista: a demanda de quem o trabalho psicanalítico atende? Do sujeito? Da sociedade? Do psicanalista?
[5] “educação pelos pares” é uma tradução possível.
[6] Sugere-se que o conceito de “preconceito” seja: atitudes organizadas a partir de formas estereotipadas de compreensão. Este conceito vem sendo desenvolvido pelo autor em intervenções educativas na área de “educação para a saúde” desde 1999.
[7] PERRONE-MOISÉS, L. Lição de Casa. Posfácio a BARTHES, R. Aula. São Paulo: Cultrix, 1978.
[8] BARTHES, R. Aula. Tradução e posfácio de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1978.
[9] JONSEN AR. Is individual responsability a sufficient basis for public confidence? Arch. Int. Med.  1991; 151:660-662. apud CAMPOS, MA. O trabalhador da saúde portador do HIV - lições de ética e biossegurança. Revista da Associação Médica Brasileira São Paulo, 1999; 45 (2):163-168.
[10] CRITELLI, D. Ainda quero a vida cor de rosa. Jornal Folha de São Paulo, Encarte “Equilíbrio”. São Paulo: Folha da Manhã, 27 de Novembro de 2003. pg 12.
[11] PELLEGRINI, H. Pacto edípico e pacto social. Resumo de artigo publicado na Folha de São Paulo em 1984, disponibilizado como bibliografia pelo professor Arlindo Pimenta no curso “Contribuições da Psicanálise à Cultura” do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.
[12] E também com as teorias de pensadores da educação que antecederam Freire, como o russo Vygotsky, que apontava, no começo do século XX, a influência do contexto social na formação dos indivíduos.

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